O mercado de cilindros para veículos pesados movidos a gás saltou 273% em um ano, enquanto os kits para carros de passeio perderam espaço. A virada reflete uma mudança estrutural: os híbridos dominam o segmento leve, mas caminhões e ônibus encontraram no GNV e no biometano uma alternativa ao diesel.
A pergunta que fica é: a infraestrutura de abastecimento conseguirá acompanhar esse ritmo?
Números que mostram a virada
Em 2020, a MAT comercializou 24.854 cilindros para veículos leves. No ano passado, foram apenas 3.045. Enquanto isso, o segmento pesado saiu de 492 unidades em 2024 para 1.835 em 2025.
Desse total, 47,6% foram para veículos adaptados à coleta e limpeza urbana — um nicho que se tornou o principal motor de crescimento.
O efeito nos pequenos negócios
Transportadoras e empresas de serviços urbanos são as que mais sentem o impacto dessa transição. Caminhões de lixo e varrição rodam o dia inteiro, com alta demanda de disponibilidade e operação concentrada nas cidades.
Para essas operações, o biometano surge como alternativa viável ao diesel, com possibilidade de redução de até 90% nas emissões de gases de efeito estufa, dependendo da origem do combustível e da metodologia de cálculo.
O gargalo do abastecimento
O avanço, porém, esbarra em um problema prático: postos de GNV projetados para carros não comportam caminhões. Falta espaço para manobra de carretas e o tempo de enchimento é inadequado para a rotina logística.
“Postos para veículos leves carecem de espaço e apresentam tempos de enchimento que não atendem à dinâmica das frotas”, afirma Luis Fernando Assaf, presidente da MAT.
Estratégia: infraestrutura própria
A fabricante de cilindros planeja ir além da produção de equipamentos. A ideia é participar do desenvolvimento de pontos de abastecimento corporativos, permitindo que transportadoras e empresas de limpeza urbana tenham estrutura própria.
- Redução de deslocamentos até postos públicos
- Menos filas e períodos de indisponibilidade
- Mais previsibilidade para a operação da frota
Na visão da companhia, a infraestrutura é parte decisiva da viabilidade econômica da migração do diesel para o gás.
Projeções para 2026
A expectativa é fornecer cerca de 2.100 cilindros para veículos pesados no próximo ano. Desse volume, aproximadamente 30% deve atender projetos de empresas como a Comlurb, do Rio de Janeiro.
Embora a participação relativa seja menor que a de 2025, o número absoluto deve seguir crescendo — sinal de que o mercado está se consolidando.
O que observar daqui pra frente
O biometano aparece como a grande aposta para o transporte pesado no Brasil. Produzido a partir da purificação do biogás, o combustível pode ser usado em veículos preparados para GNV e ainda reduz o ruído — vantagem relevante para operações urbanas noturnas.
O ponto de atenção é a escala. Para que o combustível deixe de ser promessa e vire realidade acessível às frotas, será preciso investir em infraestrutura de abastecimento e em oferta local do gás renovável.
Empresas que dependem de transporte pesado devem acompanhar de perto essa evolução — especialmente as que operam em cidades com restrições ambientais ou metas de descarbonização.
