Economia

UE copia Trump e vira sócia de mineradoras: o plano de R$ 11 bi que poucos viram…

Parlamento Europeu aprova fundo de 2 bi euros para minerais críticos reduzir dependência China
UE cria agência para comprar participações em projetos de minerais estratégicos com fundo de R$ 11 bi.

O Parlamento Europeu aprovou a criação de uma agência com poderes para comprar participações em projetos de minerais críticos, espelhando a estratégia agressiva dos EUA. A medida visa blindar o bloco da dependência chinesa, mas especialistas alertam: o orçamento inicial pode não sustentar a ambição.

A proposta prevê um fundo de 2 bilhões de euros (cerca de R$ 11,15 bilhões) para aquisição de fatias acionárias em “circunstâncias excepcionais”. A pergunta que fica é se isso basta para competir com gigantes globais.

O espelho americano e o modelo japonês

A inspiração declarada vem de dois lados do Pacífico. Em julho de 2025, o Pentágono injetou US$ 400 milhões (R$ 1,99 bi) por 15% da MP Materials, maior produtora de terras raras dos EUA, além de um empréstimo de US$ 150 milhões (R$ 747 mi).

O acordo incluiu um piso de preço de US$ 110 (R$ 548) por quilo de neodímio-praseodímio por dez anos. Esse componente é vital para ímãs permanentes usados em veículos elétricos e robótica.

O parlamentar Mohammed Chahim, relator da proposta, resume a lógica: “Não é preciso reinventar a roda. É melhor simplesmente copiá-la”, referindo-se à JOGMEC, a agência japonesa que garante suprimento estável há décadas.

Por que a Europa não pode esperar

A vulnerabilidade atual é exposta: projetos europeus são “muito sensíveis aos preços de mercado”, que podem ser manipulados por grandes agentes globais, segundo Chahim. EUA e Japão, que já investiram pesado em cadeias próprias, são “muito menos vulneráveis”.

O risco geopolítico é direto. Bernd Schäfer, diretor do EIT RawMaterials, alerta que os EUA correm o risco de “se tornarem uma segunda China para a Europa” em dependência de terras raras. A concentração de processamento na China segue como o maior gargalo estratégico.

O dinheiro está na mesa, mas será suficiente?

Os 2 bilhões de euros viriam do próximo orçamento de longo prazo da UE. Chahim admite a fragilidade do número: “Se o orçamento continuar em 2 bilhões de euros, não considero alta a probabilidade de o projeto ter sucesso.”

Para funcionar, a equação exige capital adicional de três fontes principais:

  • Investidores privados dispostos a assumir risco de exploração;
  • Governos nacionais com apetite por subsídios diretos;
  • Banco Europeu de Investimento (BEI) como alavanca de financiamento.

Sem essa coordenação, a agência nasce com poder de fogo limitado frente aos pacotes bilionários de Washington e Tóquio.

A rota legislativa alternativa

A Comissão Europeia planejava apresentar a lei do novo centro em setembro, mas recuou. A resposta de Chahim foi tática: emendar a revisão da Lei de Matérias-Primas Críticas já em tramitação.

O texto atual foca em designar “projetos estratégicos” — 106 no total após a última leva de 46 — que ganham licenciamento acelerado, mas sem garantia de dinheiro público. A nova emenda insere a compra de ações como ferramenta extra.

O entrave final é político. A proposta precisa do aval dos Estados-membros. Alemanha e Espanha demonstraram ceticismo inicial, embora Chahim afirme que o diálogo está aberto.

O que observar daqui para frente

Para investidores e gestores de cadeia de suprimento, três sinais ditam o ritmo real dessa mudança: a definição exata de “circunstâncias excepcionais” para compra de ações, a capacidade da UE de alavancar o BEI além do orçamento base e a velocidade de aprovação pelos parlamentos nacionais. Se o bloco conseguir transformar os 106 projetos estratégicos em ativos operacionais com capital próprio, a geologia europeia deixa de ser apenas potencial para virar segurança de fato.