O dólar disparou 11,77% na manhã desta segunda-feira (26), batendo R$ 5,584 às 10h14, em reação imediata ao resultado das urnas. O Banco Central, no entanto, freia qualquer diagnóstico definitivo: para a autoridade monetária, é precipitado cravar impactos no balanço de pagamentos agora.
A volatilidade extrema acionou o circuit breaker na B3, paralisando negócios diante da queda brusca do Ibovespa. Mas a pergunta que fica é: até onde vai essa correção e o que fica de cicatriz na economia real?
O choque em números: do otimismo ao susto em poucas horas
Na sexta-feira (23), a moeda americana fechou em queda de 0,96%, cotada a R$ 4,989. O mercado precificava a vitória do adversário. Três dias depois, o cenário inverteu com força total, devolvendo o câmbio a patamares de janeiro, quando a divisa tocou R$ 5,48.
No acumulado desde agosto, com as chapas definidas, o dólar acumulava recuo de cerca de 2%. Todo esse “colchão” de valorização do real foi dissolvido em minutos na abertura desta segunda.
Por que o BC evita previsões agora
Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas do BC, foi taxativo: não há como isolar o efeito eleitoral das demais variáveis às 11h de uma segunda-feira pós-pleito. A interação entre política fiscal, dados de atividade e a reação definitiva dos investidores estrangeiros ainda está em construção.
Segundo ele, três movimentos são possíveis para a frente: a devolução total da alta, a permanência parcial do novo patamar ou a fixação integral da desvalorização. “Não se deve esperar do balanço de pagamentos uma reação instantânea a essa mudança brusca”, resumiu.
O que os analistas projetavam antes do resultado
O Boletim Focus desta segunda traz um detalhe crucial: as estimativas foram coletadas antes da apuração. Mesmo assim, já mostravam viés de apreciação do real para o fim do ano:
- Fim de 2022: projeção de R$ 5,05 (ante R$ 5,13 na semana anterior);
- Fim de 2023: estimativa em R$ 5,15 (ante R$ 5,22).
Esses números já estão defasados frente à nova realidade de R$ 5,58. A próxima leitura do Focus dirá se a casa dos R$ 5,10 virou piso ou teto.
Cenários: ruído de curto prazo ou mudança estrutural?
A história recente ensina que choques eleitorais costumam gerar picos de volatilidade seguidos de acomodação — desde que a sinalização de política econômica não assuste. O risco está na velocidade: se o novo governo demendar a ancoragem fiscal, a banda de R$ 5,50 a R$ 5,60 pode virar o novo “normal”.
Por outro lado, fluxos de exportação fortes e juros reais elevados no Brasil seguem como âncoras técnicas que limitam a disparada prolongada. O cabo de guerra está armado.
O que observar daqui para frente
Mantenha o radar ligado em três frentes nas próximas semanas: a composição da equipe econômica (sinal de compromisso fiscal), a tramitação da PEC da Transição (impacto no teto de gastos) e a ata do Copom (reação da política monetária ao câmbio). São esses vetores que dirão se o salto de 11% foi um soluço ou o começo de uma nova rota de preços.
