Justiça

Foro no STF não acaba com o mandato: o segredo que mantém Flávio Bolsonaro na Corte

Plenário do STF com ministros em sessão sobre foro privilegiado e senador Flávio Bolsonaro
STF decide que foro por prerrogativa de função mantém inquéritos na Corte após fim do mandato parlamentar.

Uma decisão de 2025 do Supremo Tribunal Federal (STF) mudou as regras do jogo: investigações sobre crimes supostamente cometidos no exercício do mandato ficam na Corte mesmo depois que o parlamentar deixa o cargo. Para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na eleição presidencial de outubro de 2026, isso significa que dois inquéritos sensíveis podem não descer para a primeira instância quando seu mandato terminar, em 2027.

A tese fixada pela maioria dos ministros é direta: a prerrogativa de foro subsiste se o delito tiver relação com as funções exercidas, pouco importando se o inquérito foi aberto após o fim do mandato. Mas a aplicação prática dessa regra depende de uma análise caso a caso — e é aí que o cenário fica interessante para quem acompanha o risco político-institucional do país.

A virada de 2025 que mudou tudo

Até o julgamento do ano passado, a regra era clara: findo o mandato, o foro privilegiado caía e o processo migrava para a justiça comum. O STF alterou esse entendimento ao fixar que a competência da Corte se perpetua para apurar condutas vinculadas ao cargo, independentemente de quando a investigação comece.

Na prática, isso blinda a tramitação no Supremo contra a estratégia protelatória de aguardar o fim do mandato para “descer” o processo. Para empresários e investidores, o sinal é de maior previsibilidade: tribunais superiores tendem a ter ritos mais estáveis e menos suscetíveis a pressões locais.

  • Tese firmada: “A prerrogativa de foro para julgamento de crimes praticados no cargo e em razão das funções subsiste mesmo após o afastamento do cargo.”
  • Efeito imediato: Inquéritos em andamento não são remetidos automaticamente à primeira instância.
  • Filtro necessário: Cabe ao relator verificar a conexão entre o fato investigado e o exercício da função parlamentar.

Mas o efeito mais relevante aparece quando olhamos para os dois inquéritos que testam essa fronteira neste momento.

Dois inquéritos, um mesmo teste

O primeiro, sob relatoria do ministro André Mendonça, apura repasses do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para a produção do filme “Dark Horse” — documentário sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A suspeita: o senador teria usado o prestígio do cargo para viabilizar o financiamento.

O segundo, com o ministro Alexandre de Moraes, investiga lavagem de dinheiro por meio de uma casa de apostas. A Polícia Federal quebrou o sigilo telemático do advogado Willer Tomaz, amigo próximo do senador, e encontrou e-mails cadastrando Flávio como “usuário master” de conta bancária da Alcazar Holdings, empresa de Tomaz.

O relatório da PF aponta “elementos indicativos de vínculo de controle ou propriedade de fato” de Willer Tomaz sobre a Rede Loto, primeira operadora a obter autorização estadual da Loterj para explorar apostas esportivas de quota fixa no Rio de Janeiro.

O filme, o banco e o dinheiro

No caso “Dark Horse”, a conexão com o mandato parlamentar seria o uso da influência política para atrair recursos privados a um projeto de interesse pessoal e familiar. Se comprovado, configuraria desvio de finalidade na função legislativa — exatamente o tipo de conduta que a tese de 2025 pretende manter no STF.

Já na frente das apostas, o elo está na regulação setorial. O senador, como parlamentar federal, tem peso nas discussões sobre o marco regulatório das bets no Congresso. A investigação mira se houve contrapartida: facilitação legislativa ou pressão regulatória em troca de posicionamento privilegiado na estrutura societária da operadora.

Criminalistas ouvidos pela reportagem concordam: ambos os casos têm “forte vinculação” com o exercício do mandato, o que tende a mantê-los no Supremo.

O que os criminalistas projetam para 2027

A leitura majoritária entre especialistas é de que a remessa para a primeira instância só ocorreria se ficasse demonstrado — de forma inequívoca — que os fatos não guardam relação com a atividade parlamentar. Dado o estágio das apurações, isso parece improvável no curto prazo.

Isso cria um cenário de continuidade: os mesmos relatores (Mendonça e Moraes) seguem à frente dos casos, com acesso ao acervo probatório já produzido. Para a defesa, significa enfrentar ministros já familiarizados com o material. Para a acusação, evita-se o risco de “desmonte” da investigação ao mudar de juízo.

O que observar daqui pra frente

Três variáveis definirão o desfecho institucional nos próximos dois anos: (1) a produção de provas que confirmem ou rompam o nexo causal com o mandato; (2) eventuais recursos da defesa questionando a competência do STF já com base na tese de 2025; (3) o calendário processual — se houver denúncia antes de 2027, a competência se consolida definitivamente na Corte.

Para quem monitora risco jurídico-político, o recado é claro: a jurisprudência do foro por prerrogativa de função migrou de “temporária” para “funcional”. Não basta deixar o cargo; é preciso provar que o ato não decorreu dele. Enquanto essa prova não vier, o Supremo permanece como foro natural — e as investigações seguem seu curso na mais alta instância do país.