Cultura

O segredo do filme de Bolsonaro: R$ 62 mi aportados, mas diretor e consultor cobram dívidas…

Cartaz do filme Dark Horse sobre Bolsonaro com símbolo de investigação policial e valores em reais
Imagem ilustrativa da cinebiografia "Dark Horse" investigada pela PF por repasses de R$ 62 milhões.

O diretor Cyrus Nowrasteh cobrou pagamentos atrasados em julho de 2026, dez meses após a última injeção de capital do banqueiro Daniel Vorcaro no filme “Dark Horse”. A produção, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, consumiu R$ 62 milhões (US$ 12,3 milhões) repassados em cinco parcelas ao longo de 2025. A contradição entre o aporte milionário e as cobranças internas está no centro de um inquérito da Polícia Federal que apura se o dinheiro serviu, de fato, ao longa ou a outros fins.

O rastro do dinheiro: do Banco Master a um fundo nos EUA

Os recursos saíram do Banco Master, controlado por Vorcaro, e percorreram um caminho sinuoso até o set de filmagem. O dinheiro foi enviado à Entre Investimentos — empresa sob investigação — e, dali, ao fundo americano Havengate Development Fund LP.

A administração desse fundo chama a atenção:

  • Paulo Calixto: advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
  • Altieris Santana: identificado em mensagens como próximo do ex-deputado federal.

A PF investiga a hipótese de que a produção funcionou como “narrativa de cobertura para a ocultação, simulação e desvio de recursos”. Uma das linhas de apuração verifica se parte da verba financiou a permanência de Eduardo Bolsonaro no exterior. Não há comprovação até o momento.

Áudio de Flávio Bolsonaro pressiona por mais repasses

Em gravação de 8 de setembro de 2025, extraída do celular de Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitia o risco de calote em nomes de peso de Hollywood. Ele citou nominalmente o diretor Cyrus Nowrasteh e o ator Jim Caviezel para justificar a urgência de novos aportes.

“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim, né?”

Dez dias depois, Vorcaro pagou a quinta e última parcela comprovada: US$ 1,6 milhão. Dez meses se passaram e a dívida com o diretor persistia.

E-mails revelam promessas não cumpridas e mudança de rota

Em 10 de julho de 2026, Nowrasteh escreveu a Mario Frias, produtor-executivo e deputado federal, relatando que seu empresário já havia alertado a produção “repetidas vezes” sobre valores devidos. O valor exato não consta nos documentos acessados.

No dia seguinte, Frias respondeu:

“Honraremos todos os compromissos que assumimos com você… Somos pessoas de palavra, e isso nunca mudou.”

Na mesma troca, o diretor questionou alterações na estratégia de distribuição. O plano original previa estreia antes das eleições, com lançamento nos EUA e outros mercados. Frias reconheceu a mudança de cenário e propôs reunião para alinhar a nova estratégia com Karina da Gama, da GoUp Entertainment. Procurados, Frias e Karina não responderam até a publicação.

O abismo contábil da GoUp Entertainment

A documentação apreendida expõe uma discrepância milionária nas contas da produtora brasileira GoUp Entertainment:

  • Laudo contábil privado: sustenta R$ 54,2 milhões em despesas liquidadas diretamente no exterior.
  • Contratos de câmbio (Moneycorp): registram entrada de apenas US$ 2,82 milhões (~R$ 14,69 milhões) no Brasil, declarados como empréstimos da GoUp americana à brasileira.

A diferença motivou pedido de perícia contábil-financeira para confrontar gastos informados, contratos de câmbio e fluxo destinado ao fundo Havengate. O acervo supera 20 mil páginas; a GoUp americana recusou envio direto de documentos sem cooperação jurídica internacional.

Consultor também aciona a produção por valores atrasados

Não foi apenas o diretor. Dennis Rice, consultor da GoUp nos EUA para o filme, formalizou desligamento em 25 de junho de 2026, alegando ambiente insustentável, e enviou fatura por seis meses de trabalho com remuneração reduzida.

A GoUp questionou os valores, mas abriu para negociação. Em 28 de julho, Rice insistiu: “A fatura referente aos valores que me são devidos está vencida há bastante tempo… peço o pagamento o mais rapidamente possível”. Assim como no caso de Nowrasteh, não há comprovante de quitação nos autos.

O episódio de Mar-a-Lago e o veto político

E-mails de junho de 2026 mostram articulação para estrear o filme em Washington e em Mar-a-Lago, com possível presença de Donald Trump. Cyrus Nowrasteh relatou ter recebido ligação de um subsecretário de Estado americano oferecendo apoio logístico.

Karina da Gama, porém, determinou o cancelamento. A justificativa: orientação de Eduardo Bolsonaro, após conversa com Mario Frias, para separar política da indústria cinematográfica. Rice contestou, afirmando ter autorização prévia e confirmado a sessão com anfitriões que já haviam convidado autoridades. O evento não ocorreu.

O que observar daqui para frente

A perícia contábil requisitada pela PF será o divisor de águas. Se confirmada a divergência entre os R$ 54 milhões declarados gastos no exterior e os R$ 14,6 milhões que efetivamente entraram no Brasil via câmbio oficial, a tese de “narrativa de cobertura” ganha robustez probatória.

Para investidores e observadores do mercado audiovisual, o caso acende um alerta sobre governança em coproduções internacionais com lastro político: a ausência de contratos claros de prestação de contas e a mistura de agentes políticos na gestão financeira criam passivos invisíveis que só emergem quando a produção acaba — ou quando a polícia bate à porta.