Economia

O que empresários e economistas exigem do 4º mandato de Lula: ajuste ou recessão?

Lula em posse presidencial 2027 com gráficos de ajuste fiscal e recessão econômica
Presidente Lula assume 4º mandato em 2027 sob pressão por ajuste fiscal imediato.

Lula venceu a eleição de 2026 e assume em janeiro de 2027 para um mandato que vai até 2030. A vitória está consumada, mas o mercado financeiro e o setor produtivo já cobram a conta: sem ajuste fiscal imediato, a previsão é de recessão no primeiro ano de governo.

A mensagem unânime entre economistas, CEOs e líderes setoriais ouvidos pela reportagem é clara. Previsibilidade, segurança jurídica e equilíbrio das contas públicas não são desejos ideológicos — são condições para que o investimento privado volte a crescer.

O custo das promessas de campanha

Durante a disputa do segundo turno, o então candidato anunciou medidas que, somadas, podem impactar o Orçamento de 2027 em pelo menos R$ 53,6 bilhões. Entre elas:

  • Tarifa zero no transporte público aos finais de semana
  • Ampliação do Pé-de-Meia para universitários
  • Perdão de dívidas de microempreendedores individuais

O valor assusta especialistas em contas públicas. Para Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, “feita a virada política, é hora de governar e virar a economia”. Ele manifestou preocupação com a deterioração fiscal durante toda a campanha.

Herança fiscal insustentável

Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e sócio da Jubarte Capital, não usa meias palavras: Lula herda do próprio governo “uma situação fiscal absolutamente insustentável, não só no longo prazo como no curto prazo”.

O economista prevê cenário duro caso o ajuste não venha: “vamos colher um ano, muito provavelmente, com recessão já bastante razoável”. Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo, reforça: o reequilíbrio das contas é o desafio número um.

Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca Evercore, aponta a Previdência como prioridade absoluta. O gasto previsto com o INSS no orçamento de 2026 ficou em cerca de R$ 1,1 trilhão. “Adiar o ajuste também compromete o financiamento das prioridades sociais do próprio governo”, alerta.

Juros altos e o custo para quem produz

Flávio Augusto da Silva, fundador da Wise Up e colunista, vê risco concreto de manutenção dos juros acima de dois dígitos. “Impõe desafios adicionais às empresas, especialmente àquelas que ainda administram dívidas contraídas durante a pandemia”, afirma.

A nomeação do novo ministro da Fazenda é tratada como sinalização urgente. O mercado espera o anúncio rápido para ler o rumo que será dado às despesas públicas.

O que pedem os setores produtivos

Além do ajuste macro, cada setor traz sua pauta concreta para os primeiros 100 dias de gestão:

  • Portos (ATP): redução do Custo Brasil, segurança jurídica, estabilidade regulatória e reforma tributária que incentive infraestrutura
  • Combustíveis (Sindicom): tributação mais simples e investimentos em infraestrutura logística
  • Bares e restaurantes (Abrasel): revisão da regulamentação do fim da escala 6×1, sob risco de levar o país à recessão
  • Fintech (Technobank): crédito ampliando acesso à mobilidade como impulsionador da atividade econômica
  • Publicidade (Fenapro): abertura de mercado e políticas além da distribuição de renda
  • Tecnologia (iFood): previsibilidade, segurança jurídica e fim do tratamento ao empreendedor como “parte do problema”

O fator Congresso

Um executivo com passagem pela Anfavea e vice-presidência da Ford na América do Sul resume o dilema político: “venceu a democracia e, sob ela, há efetiva possibilidade de construção”. Mas adverte: o Congresso eleito é menos alinhado à visão que Lula teve até agora, e ajustes fiscais “normalmente não são populares”.

João Amoêdo, empresário e fundador do Partido Novo, foi direto: “Lula ganha do brasileiro uma nova oportunidade de fazer o que já deveria ter feito”. Se não entregar ajuste, redução da polarização e fortalecimento das instituições, projeta “um governo medíocre, que irá fortalecer uma candidatura bolsonarista para 2030”.

O que observar daqui para frente

Três movimentos definirão os primeiros meses de 2027 e ditarão o tom do mandato inteiro: a velocidade do anúncio da equipe econômica, o detalhamento do pacote de corte de despesas (ou aumento de receitas) e a negociação das primeiras medidas no Congresso. O mercado não espera perfeição — espera sinalização clara de que a regra fiscal será levada a sério. Sem isso, o custo do capital segue alto e o investimento privado permanece na defensiva.