Economia

O segredo que abalou a L’Oréal: por que a “caneta emagrecedora” mudou o jogo da beleza

Mulher aplica injeção Ozempic ao lado de produtos L'Oréal, simbolizando impacto dos GLP-1 na beleza
A "caneta emagrecedora" Ozempic ao lado de cosméticos L'Oréal: a nova fronteira da indústria da beleza.

A explosão no uso de medicamentos GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, começou a drenar a demanda por cosméticos tradicionais, forçando a maior empresa de beleza do mundo a mudar de estratégia. A L’Oréal confirmou que a perda de peso rápida está alterando o rosto do consumidor — literalmente. A resposta da gigante francesa envolve aquisições bilionárias e uma nova geração de produtos feitos sob medida para quem toma a injeção.

O impacto direto no faturamento do setor

Em teleconferência com investidores, o CEO Nicolas Hieronimus foi direto: o avanço dos agonistas do receptor GLP-1 está “tendo impacto no consumo de produtos de beleza e, em particular, no consumo de produtos para cuidados com a pele”. Apesar do aviso, a empresa registrou crescimento de 7,7% nas vendas do terceiro trimestre (encerrado em setembro), superando as projeções do mercado.

A resiliência momentânea, no entanto, mascara uma mudança estrutural. O executivo classificou o fenômeno como “muito importante para nós”, sinalizando que a adaptação não é opcional, mas de sobrevivência.

O efeito colateral que ninguém conta na bula

Não é a molécula em si que assusta a indústria, mas o espelho. A perda de peso acelerada provoca, em muitos usuários, uma flacidez cutânea súbita — especialmente na face. O fenômeno, apelidado de “Ozempic face”, esvazia volumes faciais e acelera a aparência de envelhecimento.

Uma pesquisa interna da Galderma, referência em estética injetável, constatou que a grande maioria dos pacientes em uso de GLP-1 percebeu alterações na aparência facial. O dado acendeu o alerta vermelho nos laboratórios da L’Oréal.

A jogada de xadrez: SkinCeuticals, Kiehl’s e a aposta na Galderma

A resposta da L’Oréal vem em duas frentes simultâneas: cosmética e clínica.

  • Cosméticos de suporte: As marcas SkinCeuticals e Kiehl’s já possuem linhas formuladas para “atuar em conjunto com os GLP-1”, focadas em firmeza, barreira cutânea e estímulo de colágeno tópico.
  • Estética injetável: Em dezembro de 2023, a L’Oréal elevou sua participação na Galderma para 20%. A suíça detém o Sculptra (bioestimulador de colágeno) e o Restylane (preenchedor de ácido hialurônico) — os dois pilares do tratamento da flacidez facial profunda.

Segundo a Reuters, as duas empresas já conduzem ensaios clínicos distintos testando protocolos combinados em usuários ativos de medicamentos para emagrecer.

O que observar daqui para frente

O mercado de beleza deixa de vender apenas “prevenção” para vender “reparo cirúrgico não invasivo”. Para o investidor e o empreendedor do setor, três variáveis ditam o próximo trimestre: a velocidade de aprovação de novas indicações para GLP-1, a adesão dos dermatologistas aos protocolos combinados (tópico + injetável) e a capacidade da L’Oréal de transformar sua fatia na Galderma em receita recorrente. Quem ignorar a convergência entre farmacologia metabólica e estética ficará vendendo creme para um rosto que o paciente já não reconhece.