A WEG encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 1,67 bilhão — o equivalente a R$ 18 milhões por dia útil. Apesar do volume recorde, as ações (WEGE3) lideraram as perdas do Ibovespa na semana, caindo quase 11%. O mercado não olhou para o quanto entrou no caixa, mas para o quanto sobrou de cada real faturado.
A receita líquida atingiu R$ 10,86 bilhões entre julho e setembro, alta de 5,7% na comparação anual. O Ebitda somou R$ 2,35 bilhões, e o retorno sobre o capital investido (ROIC) manteve-se robusto em 33,2%. Números que, isolados, indicariam saúde financeira invejável. O problema mora na margem.
O motor norte-americano: data centers e rede velha
O grande vetor de crescimento está fora do Brasil. As vendas internacionais representaram 62,5% do faturamento total, o maior patamar da história da companhia. A América do Norte, sozinha, respondeu por 54,7% dessa fatia externa, com receita de US$ 722,8 milhões — salto de 31% em dólar.
Dois movimentos explicam o apetite dos EUA:
- Modernização da rede elétrica: transformadores da WEG são essenciais para substituir infraestrutura envelhecida.
- Explosão de data centers: geradores da marca Marathon, do grupo, garantem energia de reserva para os galpões de servidores que alimentam a inteligência artificial.
Em moeda forte, o crescimento externo foi de 14,8%. Convertido em reais, porém, caiu para 8,3%. O dólar médio recuou de R$ 5,45 para R$ 5,14 no período, funcionando como um freio cambial no balanço consolidado.
O vilão invisível: por que a margem encolheu
A margem bruta recuou de 33,6% para 32,9%. A Ebitda, de 22,2% para 21,6%. Em termos práticos: a cada R$ 100 vendidos, a empresa guardou 70 centavos a menos do que um ano antes. A administração aponta três culpados diretos:
- Alta do cobre, matéria-prima crítica para motores e transformadores;
- Tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos;
- Folha de pagamento mais pesada, reflexo de contratações antecipadas para novas fábricas que ainda não operam em capacidade plena.
O peso da mão de obra no custo dos produtos saltou de 19,2% para 20,3%. É um custo de “pré-operacional” — a estrutura foi montada para um volume futuro que ainda não se materializou totalmente na receita do trimestre.
Sucessão na área que mais cresce: o que muda em 2027
No mesmo dia do balanço, a WEG oficializou a troca no comando da vice-presidência de Energia, divisão que congrega justamente os transformadores e geradores responsáveis pelo boom nos EUA. João Paulo Gualberto da Silva sai após 37 anos de casa. Assume Paulo Leonardo da Silva Sinoti, atual diretor de Soluções em Energia & Serviços, também com três décadas de trajetória interna.
A transição, aprovada pelo Conselho, faz parte do planejamento de sucessão. O momento é sensível: a área de Geração, Transmissão e Distribuição (GTD) cresceu as vendas externas 24,1% no trimestre. Manter a execução dos projetos de expansão fabril e a integração da cadeia de suprimentos será o primeiro teste do novo líder.
O que observar daqui para frente
O mercado projeta lucro de R$ 1,71 bilhão e Ebitda de R$ 2,40 bilhões para o período — expectativas levemente frustradas. A recuperação das margens depende de variáveis que a empresa não controla sozinha: trajetória do cobre, política comercial americana e velocidade de maturação das novas linhas de produção.
Para o investidor, o sinal de alerta não é o resultado atual, mas a dinâmica de custos. Se o dólar permanecer pressionado e as novas fábricas demorarem a diluir a folha extra, a compressão de margem pode persistir nos próximos dois trimestres. Por outro lado, a demanda estrutural por infraestrutura de energia e data centers nos EUA não dá sinais de arrefecimento. A equação é simples: a WEG vende mais do que nunca, mas precisa provar que consegue vender melhor.
