Justiça

O segredo que a polícia usa para encontrar celulares roubados: cães com 300 milhões de sensores

Cães farejadores da polícia localizam celulares roubados em operação em São Paulo usando olfato para detectar componentes eletrônicos
Cães policiais farejam smartphones escondidos em apartamentos durante megaoperação contra roubo de celulares

Uma operação com 1.700 agentes em São Paulo recuperou milhares de aparelhos roubados. O detalhe decisivo não foi tecnologia humana, mas sim o olfato de cães treinados para detectar a assinatura química única de cada smartphone.

Os animais localizaram os esconderijos em apartamentos fechados onde equipamentos eletrônicos convencionais falhariam. O resultado expõe uma capacidade que a ciência só agora começa a dimensionar por completo.

Como um cão “cheira” um celular desligado

Cristal líquido, lítio, placas de circuito, solda: a combinação cria um perfil odorífero exclusivo. Para o focinho canino, essa mistura funciona como uma impressão digital olfativa, distinguível mesmo através de paredes e móveis.

“O cão separa cada componente no ar e isola o alvo”, explica Marcos Rondo, da Polícia Penal paulista, corporação que formou o primeiro farejador de celulares do país em 2010. Oito cães dessa linhagem participaram da ação no centro da capital.

Números que explicam a vantagem biológica

  • 300 milhões de receptores olfativos nos cães
  • 5 milhões nos seres humanos
  • Capacidade de processar odores independentemente em cada narina
  • Detecção de concentrações na ordem de partes por trilhão

Luis Peres, veterinário e coordenador do Projeto K9, resume: “O animal não apenas cheira melhor; ele discrimina camadas de odor que para nós são indistinguíveis.”

Treinamento: ciência, não truque de circo

O método usa condicionamento operante com reforço positivo. O cão é exposto ao odor-alvo — no caso, amostras dos componentes de smartphones — e recebe recompensa imediata ao sinalizar corretamente, geralmente com um petisco ou brinquedo.

A escolha da raça segue a demanda operacional:

  • Pastores: resistência e foco para buscas extensas e segurança
  • Beagles: porte baixo e agilidade para esteiras de bagagem em aeroportos
  • Labradores: versatilidade e sociabilidade para ambientes de saúde pública

Detalhe técnico: em ambientes com estímulos excessivos, máscaras especiais limitam a entrada de odores competidores, mantendo o foco do animal.

Além do crime: saúde, conservação e pragas urbanas

A mesma base científica migrou para outros fronts. Na França, cães farejam colônias de percevejos em hotéis e cinemas — método considerado o mais confiável para evitar que insetos viajem em bagagens aéreas.

No Brasil, a cinotecnia foi aplicada na triagem de COVID-19 durante a pandemia e no Projeto Muriquis do Caparaó, que rastreia primatas criticamente ameaçados no parque nacional entre Minas Gerais e Espírito Santo.

O gargalo que trava a expansão no país

Jorge Pereira, fundador da Unidade K9 Internacional, aponta a ausência de certificação nacional padronizada. “Nos EUA, a regulamentação garante que um laudo farejador tenha validade jurídica. Aqui, o trabalho é sério, mas falta lastro institucional para escalar.”

Sem norma única, resultados dependem da credibilidade de cada instrutor ou instituição — o que limita a admissibilidade de provas em processos e a contratação por órgãos públicos.

O que observar nos próximos meses

A tendência é a formalização de um marco regulatório para cinotecnia no Brasil, espelhando modelos internacionais. Enquanto isso, operações como a Frank Mobile servem como vitrine prática: a cada celular recuperado, a demanda por cães certificados cresce — e com ela, a pressão por padrões que transformem “superpoder” biológico em evidência jurídica incontestável.