O governo reeleito projeta um superávit primário de 1,5% do PIB em 2030 sem cortar programas sociais, mas o roteiro para derrubar a Selic dos atuais 13,75% ao ano continua sem data marcada. A promessa é de “leve melhora” fiscal, mas o diabo mora nos detalhes que o plano oficial evita citar.
O dilema fiscal: superávit de R$ 250 bi sem passar a tesoura
A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2027 entregue ao Congresso desenha o caminho: resultado positivo de 0,5% do PIB no próximo ano, subindo gradativamente até 1,5% em 2030. Na conta do Ministério do Planejamento, são R$ 250 bilhões de “poupança” em quatro anos.
A receita não prevê cortes bruscos. O segredo está na desaceleração do crescimento das despesas obrigatórias — ou seja, o gasto continua subindo, mas mais devagar — combinada com ganhos de eficiência e caça a “privilégios e distorções”. O arcabouço fiscal atual segue como âncora, e a meta de inflação de 3% permanece intocável pelo Conselho Monetário Nacional.
Juros nas alturas: a promessa que depende do crescimento
O diagnóstico do plano é duro: a taxa de juros virou o novo vilão da concentração de renda, papel que antes era da inflação. A solução proposta, porém, é circular: juros caem com crescimento, que vem com investimentos em infraestrutura e transição ecológica.
Não há menção ao Banco Central nem a gatilhos concretos para a Selic. Enquanto isso, o endividamento das famílias bate recorde: 8% de inadimplência no crédito livre em agosto. O governo responde com o terceiro “Desenrola” em três anos e promete regras mais duras para concessão de empréstimos.
Bolso do trabalhador: piso a R$ 1.741 e Bolsa turbinado
A política de valorização do salário mínimo segue intocada. A projeção oficial aponta para R$ 1.741 em 2027, mantendo a vinculação de aposentadorias e benefícios assistenciais ao piso.
No Bolsa Família, a campanha antecipou a caneta: reajuste de 15,04% elevou o piso familiar de R$ 600 para R$ 691, repondo a inflação desde março de 2023. O custo extra em 2024 é de R$ 5,8 bilhões, e o pagamento já caiu na conta dos beneficiários antes do segundo turno.
Pé-de-Meia universal: da evasão escolar à poupança universitária
O programa que paga bolsas a estudantes de baixa renda no ensino médio vai virar universal em 2027. A novidade pesada é a extensão para o ensino superior: alunos de universidades públicas e bolsistas do Prouni inscritos no CadÚnico receberão R$ 700 mensais por dez meses, mais um depósito anual de R$ 2.500 em poupança corrigida pela inflação, resgatável só na formatura.
A conta estimada é de R$ 4,6 bilhões. Desse total, R$ 1,23 bilhão saem do Fundo Social do pré-sal e R$ 293 milhões de bolsas de permanência já existentes. A ideia é expandir depois para todos os universitários da rede pública.
Reforma Tributária: o “imposto do pecado” fica para depois
A transição do IVA dual (CBS federal + IBS estaduais/municipais) começa no próximo mandato, com cashback para os mais pobres e isenção na cesta básica. Mas o Imposto Seletivo — sobre cigarros, bebidas, refrigerantes e veículos — vai atrasar.
Há acordo com o setor privado para uma PEC adiando a substituição do IPI. O governo pede mais um mês para editar a MP com as regras. Nos bastidores, a equipe econômica já sinaliza desoneração da folha para todos os setores e uma reforma ampla na tributação das empresas.
Moradia e transporte: a aposta em terrenos ociosos e tarifa zero
No Minha Casa Minha Vida, duas frentes inéditas: compra de imóveis prontos em casos excepcionais e uso de terrenos da União — muitos em regiões centrais — para novas moradias. Há promessa de elevar o padrão construtivo e simplificar burocracias.
Já no transporte, a bandeira é a PEC da tarifa zero nos fins de semana. O texto destina 26,8% das emendas impositivas ao custeio: cerca de R$ 12 bilhões no Orçamento de 2027. O entrave é político: o Congresso resiste a perder controle sobre as emendas. Sobre combustíveis, a promessa é manter a atuação para “mitigar volatilidade” internacional.
Mercado de carbono: a conta chega em 2027 para 17 setores
O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) sairá do papel em três fases a partir de 2027. Empresas acima de 10 mil toneladas de CO2/ano reportam emissões; acima de 25 mil, terão tetos decrescentes anuais. Quem estourar, compra crédito de quem sobrou.
Um órgão gestor permanente será criado, substituindo a secretaria temporária da Fazenda. A regulação será “articulada” à Nova Indústria Brasil, a política industrial da gestão.
O que observar daqui para frente
A execução do plano fiscal depende de uma equação delicada: receitas crescendo acima do PIB e despesas obrigatórias freando o ritmo sem choques políticos. Dois gatilhos merecem monitoramento próximo: a regulamentação fina do mercado de carbono — que define custos reais para a indústria a partir de 2027 — e a votação da PEC do transporte gratuito, teste de fogo da articulação legislativa. Se a arrecadação frustrar as projeções de 2% a 2,3% de crescimento, a promessa de juros menores vira apenas retórica.
