O italiano Oreste Forno trocou 17 anos de carreira na IBM por uma expedição ao Everest há quatro décadas. Hoje, aos 73 anos, mora sozinho a 2.000 metros de altitude numa cabana erguida com as próprias mãos — e usa a internet para mostrar ao mundo como é viver no limite.
O que leva um executivo de tecnologia a abandonar a segurança corporativa pela incerteza das montanhas? A resposta está numa escolha feita há 40 anos, mas cujos efeitos ecoam até hoje na rotina de quem optou por radicalizar.
O salário que comprou a liberdade
Forno nasceu em Monastero, na Itália, e desde cedo sentiu o chamado das altitudes. Aos 20 e poucos anos, formou-se técnico em eletrônica e entrou na IBM. O cargo exigia viagens constantes aos Estados Unidos, reuniões intermináveis e a rotina de escritório que ele definiu, sem rodeios, como “bastante penosa”.
Mas o contracheque gordo teve um propósito único: financiar o sonho. Em 1984, ele pediu demissão e partiu para o Nepal. A expedição ao Everest custou o equivalente a anos de poupança corporativa. Chegou ao campo base, enfrentou avalanches, frio extremo e a logística precária da época — sem GPS, sem comunicação por satélite, sem resgate garantido.
Não chegou ao cume. A montanha não permitiu. Mas a experiência selou o destino dele: a vida urbana tinha data de validade.
Da expedição à cabana: 40 anos de transição
Após o Everest, Forno não voltou para a Itália nem para a IBM. Passou décadas vivendo entre refúgios alpinos, trabalhando como guia de montanha e carpinteiro. Aos 50 anos, comprou um terreno íngreme nos Alpes italianos, a 2.000 metros de altitude. Não havia estrada, nem energia elétrica, nem água encanada.
Ele carregou cada tábua, cada prego, cada saco de cimento nas costas. A construção levou três anos. A cabana tem 30 metros quadrados, isolamento térmico de lã de rocha, fogão a lenha que aquece também a água e painéis solares instalados há uma década — quando a tecnologia finalmente ficou leve e barata o suficiente para subir a montanha.
- Altitude: 2.000 metros
- Área: 30 m²
- Tempo de construção: 3 anos
- Energia: painéis solares + gerador a gasolina de emergência
- Conexão: internet via satélite (Starlink desde 2022)
A tecnologia que aproxima da natureza
A ironia não escapa a Forno: foi a indústria que ele abandonou que hoje permite sua permanência na montanha. A internet via satélite — primeiro VSAT, agora Starlink — garante comunicação, previsão meteorológica em tempo real e, crucialmente, renda.
Ele mantém um canal no YouTube com mais de 120 mil inscritos. Posta vídeos semanais: reparos no telhado após nevasca, colheita de cogumelos, manutenção dos painéis solares, reflexões sobre envelhecer sozinho a 2.000 metros. A monetização cobre remédios, peças de reposição, idas eventuais à cidade mais próxima (duas horas de trilha + 40 minutos de carro).
“A tecnologia não me tirou da montanha. Ela me deixa ficar aqui mais tempo”, disse em entrevista recente ao documentarista que registrou sua história.
O corpo aos 73 anos: limites e adaptações
O inverno nos Alpes a 2.000 metros dura seis meses. Temperaturas chegam a -20°C. A neve cobre a trilha de acesso por semanas. Forno sabe que uma queda, uma apendicite, um infarto — qualquer emergência médica — vira tragédia logística.
Ele adaptou a rotina: cortou lenha no outono para não precisar serrar no gelo, instalou corrimãos em todos os trechos íngremes do terreno, mantém telefone de emergência ao lado da cama. Faz check-ups anuais na cidade. Carrega um dispositivo de localização por satélite (Garmin inReach) no bolso do casaco, 24 horas por dia.
“Não sou herói. Sou teimoso. E sei meus limites melhor hoje do que aos 30”, resume.
O que observar daqui pra frente
Forno estima que consegue manter a rotina atual por mais cinco a sete anos. Depois, a logística de subir e descer a montanha para compras e consultas ficará inviável. Ele já conversou com a prefeitura local sobre um plano de contingência: um pequeno apartamento na vila mais próxima, mantido alugado para turistas no verão, vago no inverno para ele.
Enquanto isso, o canal no YouTube segue crescendo. A cada vídeo, milhares de executivos estressados, empreendedores em burnout, profissionais de TI cansados de aeroportos assistem a um homem de 73 anos acender o fogão a lenha, preparar café, olhar a geleira pela janela — e lembrar que existe outra forma de medir o sucesso.
Não é para todos. Mas a prova de que é possível — financiada por salário de multinacional, sustentada por tecnologia de ponta, vivida em silêncio — está lá no alto. Acessível a quem tiver curiosidade de clicar.
