Cultura

O segredo que a IA não tem: por que Kore-eda desistiu do chatbot

Hirokazu Kore-eda olha para tela com interface de chatbot generativo durante revisão de roteiro
Kore-eda testa IA para roteiro de "Sheep in the Box" e descobre limitações criativas da tecnologia

O diretor Hirokazu Kore-eda testou um chatbot generativo para revisar o roteiro de Sheep in the Box, seu novo filme sobre inteligência artificial, e abandonou a ferramenta após poucas rodadas. A razão não foi erro técnico, mas tédio: a máquina só oferecia sugestões “corretas”.

O que um roteirista premiado em Cannes descobriu ao conversar com uma IA que ele batizou de “Chat-kun”? A resposta muda a forma como criadores e investidores devem olhar para a automação criativa.

Elogios precisos, mas previsíveis

Kore-eda submeteu o script completo e trocou mensagens com o modelo várias vezes. O retorno seguia um padrão: muitos elogios, seguidos de correções cirúrgicas — “desenvolva mais a mãe da protagonista”. Tecnicamente impecável. Artisticamente, vazio.

“Ele só diz coisas corretas. E eu me perguntei o que era aquilo que tornava tudo tão entediante”, relatou o diretor em entrevista. A constatação veio rápido: a ausência de ruído, de risco, de gosto pessoal.

O vazio por trás da precisão

Para Kore-eda, o problema central não é falta de dados. A IA provavelmente conhece mais história do cinema do que qualquer crítico humano. O que ela não tem é histórico pessoal:

  • Nenhum filme que mudou sua vida
  • Nenhuma memória de sessão de cinema
  • Nenhuma cicatriz estética

Essa ausência transforma sugestões em fórmulas. Cenas de ação no teto de trem surgem no minuto exato em que o manual manda. Previsibilidade mata surpresa — e surpresa é moeda de valor no audiovisual.

Gosto distorcido vence precisão perfeita

O diretor foi direto: “Por mais poucos filmes que uma pessoa tenha visto, por mais distorcido que seja seu gosto, a opinião de alguém que tem um filme que mudou sua vida vai levar a um trabalho mais interessante no final.”

A frase resume um insight valioso para quem gere times criativos ou avalia ferramentas de IA: subjetividade não é ruído, é sinal. O erro humano carrega intenção; o acerto algorítmico carrega média.

Decisão prática: IA fora do set

Kore-eda garantiu que não usou IA na produção de Sheep in the Box e pretende mantê-la fora de seus processos “o máximo possível”. Receberá o Prêmio Honorário de Cinema no Festival Internacional de Singapura em 2026, mas a postura não é de resistência romântica — é de cálculo de retorno criativo.

“Não é porque devemos. É porque é divertido. Da mesma forma, o ato de criar coisas é divertido. Eu gostaria de ficar do lado humano.”

O que observar daqui para frente

Enquanto estúdios testam roteiros gerados por IA para reduzir custos de desenvolvimento, o caso Kore-eda sinaliza um limite: a ferramenta otimiza para consenso, não para singularidade. Para investidores e produtores, a métrica a vigiar não é velocidade de draft, mas taxa de originalidade aprovada em comitês de seleção de festivais e plataformas premium.

O próximo teste real virá quando uma IA sugerir algo “errado” — e um diretor humano decidir seguir mesmo assim. Nesse dia, a máquina terá deixado de ser corretora para virar colaboradora.