A SyberJet apresentou o SJ36, um jato executivo leve projetado para superar o Phenom 300E em velocidade, alcance e altitude de cabine, mas as primeiras entregas só devem ocorrer em 2032. O anúncio ocorreu às vésperas da NBAA-BACE, principal feira do setor, e reacende a disputa pelo segmento mais lucrativo da aviação executiva. Será que a fabricante americana consegue transformar metas de engenharia em aeronaves certificadas?
Números que impressionam no papel
O SJ36 promete velocidade máxima de 936 km/h (Mach 0,88), alcance de 5.556 km e pressurização equivalente ao nível do mar a 12,5 km de altitude. Para comparação, o Phenom 300E atinge 859 km/h (Mach 0,80) e voa 3.723 km. A autonomia projetada representa um salto de cerca de 49% sobre o líder de mercado há 14 anos consecutivos.
A cabine acomoda até oito passageiros mais o piloto, com seis telas sensíveis ao toque no sistema SyberVision. A fabricante estima reduzir em até 50% o custo de fretamento frente a jatos médios, mantendo despesas operacionais de modelos leves. O preço de lançamento é de US$ 14 milhões para os primeiros 250 clientes, subindo para US$ 16 milhões depois.
O abismo entre meta e certificado
Todos os dados acima são objetivos de projeto, não desempenho comprovado. A aeronave ainda não voou e depende de certificação da FAA — processo que costuma revelar diferenças entre projeção e realidade. Consumo real de combustível, custos de manutenção e comportamento com carga completa só serão conhecidos após ensaios em voo.
Além disso, a SyberJet pretende desenvolver internamente aviônicos e grande parte dos sistemas, algo que até gigantes como Embraer, Airbus e Boeing terceirizam. A estratégia aumenta o risco de atrasos e estouros de orçamento.
Cartas de intenção não são pedidos firmes
A empresa informa ter recebido manifestações de interesse para mais de 50 unidades, vindas de operadores de fretamento, departamentos corporativos e proprietários particulares. Porém, a própria SyberJet esclarece que essas cartas não são contratos vinculantes e podem não se converter em encomendas.
- Primeiro voo previsto: entre 3 e 5 anos
- Certificação e entregas: 2032
- Motores: 2 Williams International FJ44
- Peso máximo de rampa: 8.391 kg
Herança técnica e dono polêmico
O SJ36 deriva do SJ30-2, jato certificado pela FAA mas produzido em poucas unidades. A fabricante pretende reaproveitar essa base para acelerar a aprovação, embora mudanças de motor, aviônicos e estrutura exijam nova campanha de testes completa. A empresa foi adquirida em 2024 por grupo liderado por Trevor Milton, fundador da Nikola, condenado por fraude nos EUA e perdoado por decreto presidencial. O episódio levanta dúvidas sobre governança e capacidade de execução industrial.
O que observar daqui para frente
O cronograma apertado — primeiro voo em até cinco anos e entrada em serviço em 2032 — deixa margem zero para imprevistos. Acompanhe a construção de instalações industriais próprias, a evolução do sistema SyberVision e, principalmente, se as cartas de intenção migram para pedidos firmes com depósitos. Até lá, o Phenom 300 segue sem concorrente direto com desempenho comprovado e cadeia de suprimentos madura.
