A foto da vez no LinkedIn dos grandes executivos não mostra mais a fachada colorida do Google em Mountain View. O novo cenário exibe o campus da Tencent em Shenzhen, os escritórios da ByteDance em Pequim ou a sede do Alibaba em Hangzhou. O eixo das viagens de imersão tecnológica girou 180 graus: o Vale do Silício saiu de moda, a China virou destino obrigatório.
Desde que a exigência de visto para estadias curtas caiu, no ano passado, o fluxo de missões corporativas para o gigante asiático explodiu. Empresas de educação executiva relatam fila de espera para roteiros que custam a partir de R$ 36 mil por seis dias de imersão. A StartSe, por exemplo, realizou mais de 20 expedições ao país em 2024 — o dobro do volume destinado à Califórnia.
O medo de chegar atrasado move a manada
“O brasileiro está assustado. Viu muita coisa nova chegar para competir e agora quer entender o que acontece na Ásia antes de desembarcar no Brasil”, resume Fabio Neto, sócio da StartSe, que se mudou para Xangai em setembro para acompanhar a demanda de perto. O movimento, segundo ele, tem cara de “manada”: todos correm para o mesmo lado ao mesmo tempo.
Na lista de passageiros figuram nomes pesados: Ambev, Bradesco, McDonald’s, iFood, Volkswagen e General Motors. Setores que já sentem no bolso a concorrência de grupos chineses no mercado local. Para Fábio Rua, vice-presidente da GM para a América Latina, a lógica é clara: “Não precisamos ir lá para conhecer a concorrência, ela está aqui. O objetivo é colocar a equipe em contato com o ecossistema de inovação”.
Gigantes que não cabem em um setor só
O roteiro padrão inclui Alibaba, ByteDance, Tencent, Xiaomi e Baidu. O que essas empresas têm em comum? Recusam-se a ser definidas por uma única vertical. “A Alibaba é varejo, mas é tecnologia, logística, serviços financeiros, meio de pagamento — é tudo ao mesmo tempo”, explica Neto. Essa fluidez entre setores é o que mais intriga os visitantes brasileiros, acostumados a modelos de negócio mais compartimentados.
- Alibaba: e-commerce, cloud, fintech, logística, entretenimento
- Tencent: jogos, redes sociais (WeChat), pagamentos, cloud, IA
- ByteDance: algoritmo de recomendação, conteúdo, e-commerce, enterprise software
- Xiaomi: hardware, IoT, veículos elétricos, ecossistema de apps
- Baidu: busca, direção autônoma, IA generativa, cloud
Velocidade chinesa: o choque de realidade
O termo “Chinamaxxing” — fascinação ocidental pelo estilo de vida e avanços tecnológicos chineses — virou hashtag e ganhou até definição na The Economist. Mas por trás do fenômeno cultural há um dado duro: a velocidade de implementação. A Zup, empresa de tecnologia do Itaú, enviou 16 funcionários à China este ano após anos de missões anuais aos EUA e Europa. “Eles têm um nível de celeridade absurdo para implementar as coisas”, relata o vice-presidente Marco Bonas.
O que mais impressionou a comitiva foram os times híbridos: funcionários digitais (agentes de IA) e humanos operando juntos em produção real, não em piloto. “Tem algo diferente sendo feito lá e precisávamos ver de perto”, admite Bonas. A China virou “destino obrigatório” no calendário da empresa.
IA generativa: a nova corrida armamentista
A disputa pela supremacia em inteligência artificial funciona como combustível extra. Enquanto Washington e Pequim travam uma guerra de sanções e restrições de chips, o lado chinês acelera a aplicação prática de modelos generativos em escala industrial. Executivos que visitaram centros de P&D relatam casos de uso em manufatura, logística e atendimento ao cliente que ainda não têm espelho no Ocidente.
Mônica Magalhães, da agência Moovers — estreante no mercado de missões para a Ásia —, resume a mudança de referência: “As referências que antes eram dos EUA começam a migrar para as chinesas”. Curiosamente, o próprio público americano alimenta o Chinamaxxing, consumindo vídeos de turistas e tecnólogos que mostram robôs entregando refeições, pagamentos por reconhecimento facial e cidades inteligentes funcionando em tempo real.
O que observar daqui para frente
A isenção de visto para estadias de até 15 dias deve manter o fluxo alto no curto prazo. Mas o verdadeiro termômetro será a capacidade das empresas brasileiras de traduzir o que viram em mudanças reais de produto, processo e cultura organizacional. Missões de benchmarking viram turismo corporativo se não houver mandato interno para experimentação. A próxima onda de viagens já está sendo desenhada: menos “visita guiada”, mais “projeto piloto conjunto”. Quem só tira foto na Muralha corre o risco de voltar com belas imagens — e zero vantagem competitiva.
