Economia

Você não vai acreditar: o que a França ensinou sobre o ajuste que o Brasil evita…

Gráfico mostra juros franceses de 10 anos acima de 5% com bandeiras da França e Brasil
Juros franceses rompem 5% pela 1ª vez em 20 anos, alerta para o Brasil sobre custo da paralisia política

Os juros dos títulos franceses de dez anos romperam 5% pela primeira vez em duas décadas. O prêmio sobre os papéis alemães saltou para 1,6 ponto percentual — nível não visto desde a crise do euro. A dívida caminha para 121,7% do PIB em 2027. Uma economia rica começou a pagar caro pela paralisia política antes mesmo de perder acesso ao mercado.

O recado é direto: o custo da indecisão chega pelo orçamento, não pelo calote. E o Brasil assiste à aula da primeira fila.

O aviso que veio de Paris

A França ainda tem mercado profundo e respaldo institucional. Mas precisará emitir 340 bilhões de euros em títulos longos apenas em 2027, com crescimento baixo e Parlamento fragmentado. Se os juros atuais persistirem, serão incorporados ao custo médio da dívida. A restrição chegou antes da crise — pelo lado da despesa.

O caso organiza a experiência internacional. Ajustes fiscais diferem pelo tamanho, pela composição e pelas circunstâncias. Alguns são impostos pela interrupção do financiamento. Outros, negociados sob assistência externa. Há respostas a choques de credibilidade. E há os preventivos — a categoria que interessa ao Brasil.

Quatro lições que o mundo já pagou para aprender

  • Grécia: perdeu acesso ao mercado em 2010. O saldo primário ajustado melhorou 17 pontos do PIB em três anos. O PIB caiu cerca de um quarto. Desemprego bateu 27%. O tamanho refletiu a falta de alternativas, não ambição reformista.
  • Portugal: recorreu à assistência europeia e ao FMI. Ajuste estrutural de 8,7 pontos do PIB entre 2010 e 2014, quase metade via aumento de receitas. Houve recessão, mas o país recuperou o acesso ao mercado e a autonomia.
  • Argentina: em 2024, o governo Milei fez ajuste de 5% do PIB concentrado nas despesas. Transformou déficit primário em superávit. A desinflação foi rápida; a queda da atividade e a erosão de salários e aposentadorias mostraram o custo.
  • Reino Unido: em setembro de 2022, Liz Truss anunciou cortes de impostos sem financiamento nem projeção do órgão fiscal independente. A libra caiu, juros dispararam, fundos de pensão alavancados forçaram intervenção do Banco da Inglaterra. O plano foi revertido; a primeira-ministra saiu em 49 dias.

A África do Sul oferece o paralelo mais próximo do Brasil. Rebaixada a grau especulativo, passou a buscar superávits primários sem perder o mercado. O resultado chegou a 1% do PIB em 2025/26, deve atingir 1,7% neste ano, e a dívida estabilizou em 78,4%. O programa modera despesas correntes e amplia investimento em energia e logística — embora o serviço da dívida tenda a superar gastos com saúde e educação básica. O ajuste é gradual porque começou antes de o mercado se fechar.

Por que a conta chega mais rápido agora

O ambiente financeiro mudou. Juros soberanos e prêmios de prazo subiram em várias economias avançadas. Na Europa, a pressão francesa abriu os spreads de Bélgica, Itália, Espanha e Grécia. Nos emergentes, eles seguem comprimidos, segundo o FMI, mas vulneráveis a uma mudança de apetite por risco. Dívida e emissões elevadas acirraram a disputa global pela poupança.

O mercado voltou a diferenciar riscos fiscais e a transmitir juros maiores com mais rapidez. Quanto mais alta a dívida e mais curto seu prazo médio, mais cedo o custo das novas emissões chega ao orçamento. Juros mais altos elevam o superávit necessário para estabilizar a dívida. A espera aumenta o próprio custo que se pretende adiar.

O Brasil na equação

O país não enfrenta crise de financiamento externo. Mas compete pela mesma poupança num mundo de capital mais caro, pagando um dos juros reais mais altos do planeta. Com parcela relevante da dívida atrelada à Selic, a alta dos juros chega ao orçamento quase de imediato.

Um ajuste da ordem de 3% do PIB em cinco anos pode ser feito principalmente pela contenção do crescimento das despesas obrigatórias, sem cortes nominais. Não deveria ser comparado mecanicamente aos 17 pontos gregos ou aos 8,7 portugueses. A comparação correta é institucional: decidir enquanto o país controla o rol e a sequência das medidas a serem propostas, negociadas e aprovadas — ou aceitar que o custo de rolagem da dívida reduza esse controle.

O que observar daqui para frente

Não existe tamanho de ajuste independente do tempo. A Grécia precisou corrigir muito porque chegou tarde, com desequilíbrios acumulados e pouco espaço de escolha. A África do Sul distribui a correção no tempo porque começou antes. França e Reino Unido mostram que nem países ricos escapam da disciplina da credibilidade.

Num mundo em que o risco fiscal voltou a ter preço, a escolha decisiva não é entre ajuste rápido ou gradual. É entre comandar a correção ou esperar que as condições financeiras ditem a sua anatomia. O calendário político de 2025 e 2026 dirá qual caminho o Brasil escolheu — e o mercado já começou a precificar a resposta.