O vencedor do segundo turno deste domingo (25) herdará a missão de nomear o chefe da equipe econômica sob uma nuvem de desconfiança generalizada. As promessas de campanha de ambos os lados inflaram o gasto público e assustaram o mercado. A escolha do ministro será o primeiro teste real de credibilidade do novo governo.
Não há espaço para amadorismo. A reação dos juros futuros e do dólar nas primeiras horas após o anúncio ditará o custo de financiamento da dívida pelos próximos quatro anos.
O rombo herdado das urnas
Com a máquina pública nas mãos, o atual presidente estendeu subsídios a combustíveis, perdoou dívidas de MEIs e acenou com um Pix de R$ 5.000 para empreendedores a partir de 2027. A lista não para aí: expansão do Pé-de-Meia para universitários e tarifa zero no transporte urbano aos fins de semana completam o pacote de despesas sem fonte de custeio definida.
Do outro lado, o senador que o mercado via como fiador do ajuste fiscal recuou. Prometeu manter ganhos reais para aposentados, rejeitou desvincular benefícios do salário mínimo e abraçou a tarifa zero. Medidas que poderiam gerar economia relevante saíram do radar antes mesmo da posse.
Por que o timing do anúncio virou estratégia
A condução fiscal na campanha mudou as regras do jogo. Não basta escolher um nome técnico; o momento da revelação virou peça de xadrez. O placar final nas urnas definirá o grau de aceno ao mercado necessário para estancar a sangria cambial.
Se o petista vencer, precisará de um nome capaz de reverter a reação negativa imediata — alta de juros e dólar — antes mesmo da diplomação. Se o candidato do PL levar, a pressa será ainda maior: as promessas recentes colocaram em xeque sua disposição para o ajuste, exigindo um sinal contundente nas primeiras 48 horas.
O fantasma da “pauta da vingança” assombra o câmbio
Além do fiscal, paira o risco de que anistia a Jair Bolsonaro e impeachment de ministros do STF sequestrem a agenda econômica. Sem sinalização clara de controle de gastos, a boa vontade dos agentes evaporará. O reflexo direto: pressão cambial e curva de juros mais íngreme.
No cenário de vitória do PL, o comando da Receita Federal ganha contornos sensíveis. O órgão conduz investigações que envolvem o Banco Master, de Daniel Vorcaro — quem financiou um filme sobre o pai do candidato a pedido dele. O senador é alvo de inquérito no STF sobre o caso “Dark Horse” e de pedido de investigação por lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz. A campanha nega irregularidades.
Os cotados para a cadeira mais quente de Brasília
Lado do PL: Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC, ganhou força com aval de Tarcísio de Freitas. Amigos dizem que ele só sai do Nubank se tiver autonomia real para estabilizar a dívida. Outro nome forte é Marcelo Kayath (ex-Credit Suisse), articulador de jantar com banqueiros e preferido de Eduardo Bolsonaro. Adolfo Sachsida, coordenador econômico da campanha, é o favorito de Jair Bolsonaro, mas tem minimizado as próprias chances. Completam a lista Mansueto Almeida (BTG), Alexandre Bettamio (BofA) e o senador Rogério Marinho — este, um curinga que pode migrar para Casa Civil ou presidência do Senado.
Lado do PT: Gabriel Galípolo, presidente do BC e “menino de ouro” de Lula, lidera as apostas do mercado para dar choque de credibilidade fiscal. A permanência de Dario Durigan é incerta. Nomes políticos ganham força: Camilo Santana (PT-CE), articulador da campanha; Renan Filho (MDB-AL), bem avaliado nos Transportes e cotado para o Planejamento em 2022; e Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí e ex-secretário de Fazenda estadual. Aliados veem Fonteles como futuro presidencial e resistem a “queimá-lo” num ministério de alto desgaste.
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se o ajuste sai do papel ou vira letra morta: a velocidade do anúncio do ministro, o grau de autonomia delegado publicamente e a primeira medida concreta — não promessa — de contenção de despesa obrigatória. O mercado não perdoa hesitação. Quem ler os sinais cedo, posiciona o portfólio antes da manada.
