Tribunais regionais de todo o país definiram neste sábado (24) quais urnas eletrônicas passarão por auditoria no segundo turno das eleições gerais. O número total de equipamentos testados ultrapassa 70 nos maiores colégios eleitorais, mas o processo envolve etapas que poucos eleitores conhecem — e que podem definir a confiança no resultado final.
A escolha ocorreu por sorteio e indicação de partidos e entidades fiscalizadoras. Agora, a pergunta que fica: como exatamente essas urnas são desafiadas antes de irem para a seção de votação?
Os dois testes que ninguém explica direito
A auditoria não é única. Existem dois procedimentos distintos, cada um com objetivo e método próprios. Entender a diferença é essencial para saber o que está sendo verificado de fato.
Teste de integridade: a urna original é substituída por uma reserva e levada a local seguro, onde fica lacrada até o dia da eleição. Partidos e entidades preenchem cédulas de papel que são depositadas em urnas de lona. No domingo (25), servidores digitam esses votos na urna eletrônica e, às 17h, comparam o resultado digital com o papel.
Teste de autenticidade: feito na própria seção sorteada, antes da votação. Rompe-se o lacre da mídia de resultado, verifica-se assinaturas e resumos digitais para confirmar que o sistema é idêntico ao lacrado pelo TSE.
Números que mostram a escala da operação
A distribuição das urnas auditadas segue o tamanho do eleitorado. Veja como ficou nos principais estados:
- São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia: 43 urnas no total (33 integridade + 10 autenticidade)
- Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará: 35 urnas (27 integridade + 8 autenticidade)
- Roraima (menor colégio): 23 urnas (20 integridade + 3 autenticidade)
Em todos os casos, a biometria entra como variável extra: parte dos testes de integridade usa eleitores voluntários com identificação biométrica, em vez de cédulas preenchidas por partidos.
Quem fiscaliza os fiscais? A lista impressiona
Não são apenas partidos que acompanham. A lista de entidades convidadas inclui OAB, Ministério Público, Defensoria Pública, Congresso Nacional, CGU, Polícia Federal, Sociedade Brasileira de Computação, Confea, CNJ, CNMP, TCU e CNI. A diversidade técnica — de juristas a engenheiros e cientistas da computação — é desenhada para fechar brechas que um único grupo poderia deixar passar.
Mas o evento mais simbólico ocorreu no próprio TSE, também neste sábado.
A “zerésima” que antecede tudo
Antes de qualquer auditoria de urna, o tribunal realizou a cerimônia de verificação dos sistemas de totalização. O objetivo: confirmar que assinaturas e resumos digitais dos programas batem com os originais lacrados pela Justiça Eleitoral. O relatório concluiu: nenhuma alteração detectada.
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que “a legitimidade do poder político repousa exclusivamente na vontade soberana do povo” e que é “dever sagrado” da Corte garantir que cada voto seja registrado com exatidão. A zerésima emitida comprova que o sistema de totalização inicia zerado — sem nenhum voto pré-registrado.
E não para por aí: cada seção eleitoral fará sua própria zerésima domingo de manhã, imprimindo relatório que atesta que a urna está limpa antes de receber o primeiro eleitor.
O que observar daqui pra frente
O segundo turno testa não só a vontade do eleitor, mas a capacidade de resposta do sistema sob escrutínio máximo. A combinação de auditorias simultâneas, entidades técnicas diversas e zerésimas em cascata cria uma rede de verificação difícil de burlar sem deixar rastros.
Para quem acompanha o processo — seja como investidor em estabilidade institucional, empresário dependente de previsibilidade jurídica ou profissional de compliance —, o sinal claro é: a arquitetura de transparência foi desenhada para ser auditável em tempo real. Qualquer inconsistência entre papel e digital, ou entre assinatura esperada e encontrada, dispara alertas imediatos.
Fique atento aos relatórios de comparação que sairão após as 17h de domingo. Eles são a prova final de que a engenharia de confiança funcionou — ou de onde ela precisará evoluir para 2028.
