Uma pesquisa recente revela um racha profundo: para 62% dos eleitores de um polo político, “melhorar de vida” significa abrir o próprio negócio; no polo oposto, 65% ainda apostam na carteira assinada. O denominador comum, porém, é assustador — a produtividade do trabalho brasileiro travou por 40 anos.
O dado expõe uma fratura exposta na economia real. Enquanto o trabalhador médio dos EUA viu sua produtividade mais do que dobrar desde 1985, o brasileiro avançou apenas 40%. Essa estagnação não é um acidente de percurso; é o motor que empurra metade da força de trabalho para fora do regime formal.
O balanço de quatro décadas perdidas
Segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli (FGV Ibre), a hora trabalhada no Brasil cresceu a míseros 0,8% ao ano entre 1985 e 2025. Nos Estados Unidos, o ritmo foi de 2% ao ano. Em números acumulados: 40% de ganho aqui contra 123% lá fora.
O primeiro decênio da Nova República foi consumido pela estabilização monetária. O esperado era que, superada a inflação, a produtividade decolasse. Não decolou. De 1995 a 2025, o avanço anualizou 0,9% — um total de 31% no período. O abismo em relação à fronteira tecnológica global só aumentou.
Dois gargalos que travam o crescimento
A literatura econômica aponta dois determinantes próximos para essa paralisia. O primeiro é a base educacional. Metade da diferença de produtividade entre nações ricas e pobres é explicada por habilidades cognitivas e socioemocionais formadas no ensino fundamental. No Brasil, a escola pública falha na origem: para 90% dos alunos, o maior obstáculo nas salas de aula é a indisciplina dos próprios colegas.
O segundo gargalo é institucional. O arcabouço legal e tributário brasileiro não seleciona as empresas mais eficientes; ele protege as menos eficientes. A grande variabilidade de produtividade dentro de um mesmo setor prova que o problema não é setorial, é gerencial e legal. Boas instituições — justiça funcional, legislação trabalhista e tributária clara — deveriam permitir que capital e trabalho migrem para as firmas mais produtivas. Aqui, o fluxo é entravado.
O subsídio invisível à ineficiência
O sistema tributário ilustra bem a distorção. Regimes especiais como MEI, Simples Nacional e Lucro Presumido, desenhados para simplificar, acabaram por subsidiar a permanência de empresas de baixa produtividade no mercado. Em vez de forçar a modernização ou a saída de cena, a legislação amplia o espaço para o ineficiente.
- MEI e Simples: Alíquotas reduzidas e burocracia mínima criam incentivo para ficar pequeno e informal na gestão.
- Lucro Presumido: Permite margens de lucro fixas por setor, descoladas da performance real da empresa.
- Efeito colateral: Empresas de alta produtividade arcam com carga tributária efetiva maior para compensar a renúncia fiscal dos regimes especiais.
Essa arquitetura cria um ciclo vicioso. Diante da mediocridade geral, a aposta racional do indivíduo é o empreendedorismo de necessidade — baixa escala, baixa tecnologia, baixa remuneração. A política, sensível à demanda eleitoral, expande os subsídios. O problema se retroalimenta.
O ciclo de vida do trabalho quebrou
Em economias avançadas, a produtividade do empregado formal cresce com a idade: experiência e conhecimento se acumulam num ambiente estável. No Brasil, a má alocação generalizada de fatores de produção impede esse ciclo. O trabalhador pula de ocupação precária em ocupação precária, sem acumular capital humano específico. O resultado é a “armadilha da renda média” materializada na trajetória individual.
O que observar daqui para frente
O cenário eleitoral atual não sinaliza reforma estrutural nem na educação de base, nem na simplificação tributária que elimine distorções de alocação. Para o investidor e o gestor, a leitura prática é clara: a mão de obra qualificada seguirá escassa e cara; a informalidade e o microempreendedorismo subsidiarão a sobrevivência de concorrentes ineficientes; e o Estado continuará a transferir o custo da baixa produtividade para as empresas formais de alta performance.
Acompanhe a tramitação da reforma tributária no Congresso: a manutenção ou ampliação de regimes especiais será o termômetro de se o país opta por enfrentar a raiz do problema ou apenas gerenciar os sintomas.
