A disputa pelo Planalto transformou a reta final do segundo turno em um leilão de benesses fiscais sem precedentes, deixando para o vencedor uma conta estimada em R$ 290 bilhões que vence já em 2027. O custo real das promessas, porém, escapa ao controle de qualquer planilha de campanha.
De um lado, o pacote do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já tem preço marcado pelo mercado: entre R$ 53,6 bilhões e R$ 82 bilhões apenas no primeiro ano do próximo mandato. Do outro, a plataforma de Flávio Bolsonaro (PL) evita detalhar cifras, mas acumula medidas que, somadas, podem superar a fatura do adversário.
O tamanho do buraco no Orçamento de 2027
Os números divulgados até aqui mostram uma simetria perigosa. A equipe de transição de Lula admite impacto de R$ 53,6 bilhões, mas a XP Investimentos projeta necessidade de até R$ 83 bilhões em ajustes no Orçamento do ano que vem. Já a Warren Investimentos calcula que as medidas petistas custam R$ 43,6 bilhões em 2027, escalando para R$ 195,6 bilhões até 2030.
O cenário piora quando se olha para a receita. A promessa de acabar com o split payment — mecanismo da reforma tributária desenhado para combater a sonegação — tira do caixa uma arrecadação esperada, ampliando a pressão por cortes ou novos impostos.
Promessas de Flávio: o “pacote invisível” que assusta analistas
A campanha do PL proibiu assessores econômicos de detalhar custos, forçando o mercado a precificar o risco pelo que o candidato diz que não fará. A lista de anúncios das últimas 48 horas inclui:
- Congelamento de dívidas bancárias: 6 meses para pessoas físicas, 1 ano para MPEs;
- Recriação do Perse (isenção para eventos), custo estimado em R$ 25 bilhões/ano;
- “Pix cashback” para devolver parte dos gastos ao consumidor;
- Pedágio zero para motociclistas;
- Atualização da tabela SUS e renegociação de dívidas de Santas Casas;
- Manutenção integral de pisos constitucionais, reajuste real do salário mínimo e expansão do Pé-de-Meia.
Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren, a “grande bomba” é o congelamento de dívidas privadas. “Seria preciso ter o detalhe operacional para dimensionar, mas o risco de calote sistêmico ou subsídio implícito é altíssimo”, afirma.
Populismo “ecumênico” e a armadilha dos juros altos
A coordenadora do Observatório de Produtividade do IBRE-FGV, Silvia Matos, define o momento como “populismo fiscal ecumênico”: dá-se dinheiro para empresários e para a população simultaneamente. O problema, segundo ela, é que o ajuste necessário virá num cenário de juros elevados no Brasil e no exterior, encarecendo o serviço da dívida e travando investimentos públicos.
Matos destaca a recriação do Perse como símbolo de um governo refém de setores organizados. “Um programa caro e ineficiente, extinto em 2025, volta à mesa sem contrapartida de produtividade”, critica.
Herança envenenada: combustíveis e jornada 6×1
Além das promessas de palanque, o próximo presidente herda dois abacaxis imediatos. O desmonte da subvenção aos combustíveis — mantida por Lula em 2026 — não pode ser feito “de uma hora para outra” sem risco de choque inflacionário, repetindo o dilema de 2023.
Há ainda a pressão empresarial por compensações caso o fim da escala 6×1 avance no Congresso. A XP estima que apenas a conta dos combustíveis e a perda de receita com o fim do split payment exigiriam um esforço fiscal extra de R$ 30 bilhões no ano que vem.
O que observar daqui para frente
O dia seguinte à eleição exigirá “colocar a bola no chão e voltar às planilhas”, nas palavras de Salto. O primeiro teste será a montagem da equipe econômica e o sinal sobre a meta de resultado primário de 2027. Investidores devem monitorar:
- A sinalização sobre a manutenção ou revisão do arcabouço fiscal;
- O destino do split payment na regulamentação da reforma tributária;
- O cronograma de retirada dos subsídios a combustíveis;
- O detalhamento — ou não — do programa de congelamento de dívidas privadas.
Quem assumir em janeiro terá menos de 12 meses para transformar promessas de palanque em execução orçamentária sem quebrar a regra de ouro. O mercado já precificou o risco; a fatura real chega no primeiro dia útil de 2027.
