Executivos das maiores empresas do país estão trocando São Francisco por Xangai. A rota da inovação mudou de endereço e quem não entendeu o motivo pode ficar para trás.
A foto da vez não é mais na frente do Google. O novo cenário exibe logos da Tencent, ByteDance e Alibaba. O que antes era uma peregrinação ao Vale do Silício virou imersão obrigatória em Shenzhen, Hangzhou e Pequim.
O fim do modelo “enlatado” de inovação
In Hsieh, pioneiro na organização dessas missões, resume a virada: “O modelo de ir ao Vale ficou enlatado e sem muita novidade”. Segundo ele, o que nasce nos EUA chega rápido ao Brasil. O que surge na Ásia, porém, ainda pega a maioria de surpresa.
A facilidade logística acelerou o fluxo. Desde o fim da exigência de visto para estadas curtas, o número de grupos organizados disparou. Agências relatam movimento de manada: empresários assustados com a velocidade da concorrência chinesa querem ver de perto antes que o impacto bata à porta.
Dados que explicam a corrida:
- Mais de 20 missões para a China em 2024 contra metade disso para o Vale
- Pacotes a partir de R$ 36 mil por seis dias (passagem, hospedagem e roteiro inclusos)
- Empresas como Ambev, Bradesco, iFood, VW e GM já enviaram times
Automotivo: o setor que sentiu o golpe primeiro
Fábio Rua, vice-presidente da GM América Latina, admite: “Precisamos aprender com eles”. A BYD encostou nos emplacamentos da montadora centenária em meses. O mercado brasileiro já abriga mais de uma dezena de marcas chinesas.
Mas a ida não é para espionar concorrente — isso já se faz daqui. O objetivo é absorver o “ecossistema de inovação”: IA generativa aplicada, robótica em escala, meios de pagamento integrados. A GM levou executivos para ver como empresas de tecnologia chinesas operam no dia a dia.
Gigantes que não cabem em um setor só
O roteiro padrão inclui Alibaba, ByteDance, Tencent, Xiaomi, Baidu. Fabio Neto, da StartSe, explica por que a lógica setorial falha: “A Alibaba é varejo, sim. Mas também é logística, fintech, nuvem, IA. Tudo junto”.
Essa transversalidade assusta e atrai. Quase todo player brasileiro terá um gigante chinês como rival ou parceiro nos próximos anos. A imersão virou questão de sobrevivência estratégica.
O fenômeno “Chinamaxxing” e a velocidade da IA
O termo, cunhado pela The Economist, descreve a fascinação ocidental pelo estilo de vida e avanços tecnológicos chineses. Virou hashtag, trend no TikTok e, agora, roteiro de negócios.
A Zup (adquirida pelo Itaú) enviou 16 funcionários este ano. O VP Marco Bonas viu times híbridos — humanos e “funcionários digitais” — operando em velocidade absurda. “Eles implementam em dias o que levamos meses”, relata. Era a primeira vez da empresa na Ásia; agora, virou destino obrigatório ao lado de EUA e Europa.
O que observar daqui para frente
Três sinais indicam se sua empresa está no ritmo certo: (1) frequência de benchmarking na Ásia versus EUA; (2) parcerias ativas com players chineses de tecnologia; (3) adoção de práticas vistas in loco — times híbridos, ciclos de deploy ultrarrápidos, integração fintech-nativa.
O visto caiu, o custo é conhecido, os concorrentes já foram. A pergunta que resta não é se vale a pena ir. É quando seu time embarca.
