Uma pesquisa recente revelou um racha profundo na sociedade: 62,3% dos eleitores de um lado querem o próprio negócio, enquanto 65,4% do outro ainda sonham com a carteira assinada. O contrato formal de trabalho deixou de ser unanimidade — e o motivo vai muito além de preferência política.
Essa divisão expõe a maior falha econômica das últimas quatro décadas. A produtividade da hora trabalhada no Brasil avançou apenas 0,8% ao ano desde 1985, contra 2% nos Estados Unidos. No acumulado, são 40% de ganho aqui diante de 123% lá fora.
O que os números escondem sobre a sua renda
Quando a produtividade não cresce, o salário real não sobe. O trabalhador médio produz hoje praticamente o mesmo que produzia em 1995 — a diferença é que custa mais caro mantê-lo formal. O resultado? Empresas encolhem, informais aumentam e a CLT vira artigo de luxo.
Nos primeiros dez anos da Nova República, o país gastou toda a energia apenas para estabilizar a moeda. De 1995 pra cá, o ritmo melhorou para 0,9% ao ano, mas o abismo em relação aos pares desenvolvidos só aumentou. Trinta e um por cento de ganho em três décadas não sustenta aumento real de renda.
Duas raízes, um mesmo problema
Especialistas apontam dois determinantes diretos para essa estagnação. O primeiro está na sala de aula: metade da diferença de produtividade entre países ricos e pobres vem de habilidades cognitivas e socioemocionais formadas na escola básica. No Brasil, 90% dos alunos dizem que o maior obstáculo nas escolas públicas é a indisciplina dos próprios colegas.
O segundo fator é invisível, mas poderoso: o arcabouço legal que decide para onde vai o capital e o trabalho. Boas instituições — tributação, legislação trabalhista, regulação, Judiciário — fazem empresas ineficientes fecharem e liberam recursos para as mais produtivas. Sem isso, o talento fica preso em negócios que não crescem.
O ciclo vicioso que prende o Brasil na armadilha
- Escola falha forma mão de obra com baixa qualificação
- Regimes tributários especiais (MEI, Simples, Lucro Presumido) subsidiam microempresas de baixa produtividade
- O trabalhador, sem perspectivas na CLT, migra para o empreendedorismo de subsistência
- A política amplia os subsídios ao ineficiente para atender a demanda eleitoral
- A produtividade média cai ainda mais — e o ciclo recomeça
Em economias avançadas, a produtividade do trabalhador cresce ao longo da carreira: experiência e conhecimento se acumulam. Aqui, a má alocação generalizada impede esse ciclo virtuoso. Quem entra no mercado informal ou em microempresas subsidiadas raramente acessa treinamento, tecnologia ou progressão salarial.
O que observar daqui para frente
O cenário eleitoral atual não sinaliza ruptura. Enquanto o debate público focar em proteger o ineficiente em vez de remover barreiras para o eficiente, a divisão entre “quem quer CLT” e “quem quer CNPJ” vai se aprofundar — e a produtividade continuará andando de lado. Para o investidor e o empresário, a aposta segura permanece na automação e na exportação, setores onde a alocação de capital ainda responde a sinais de mercado.
