O excesso de chuvas e a ausência de sol no Rio Grande do Sul já eliminaram mais de 30% da produção estadual de hortigranjeiros, com focos de perdas chegando a 40% na região central. O resultado imediato: supermercados correm para comprar fora do estado, fretes disparam e o consumidor paga a conta.
Em Santa Maria, canteiros que deveriam estar prontos para colheita viraram lama. A pergunta que fica: até quando o bolso vai aguentar?
O colapso no campo: números que assustam
Na propriedade de Milton Cauzzo, 15 mil pés de alface resistiram à umidade, mas apresentam manchas que inviabilizam a venda. Pimentões e berinjelas nem brotaram. “Nada vem, nada cresce, fica tudo parado”, resume o produtor. Setembro e outubro atípicos quebraram um paradigma histórico na região.
O extensionista da Emater, Leonardo Brondani, confirma o cenário sistêmico: melancias perderam área em setembro; morangos em estufas sofrem com doenças fúngicas provocadas pela umidade excessiva. A previsão é de redução forte no fornecimento nas próximas semanas.
Preços nas alturas: o tomate puxa a fila
Dados da Ceasa-RS mostram o impacto direto no varejo:
- Tomate longa vida: saltou de R$ 4,00 para R$ 11,50 o quilo — alta de 187,5%
- Repolho, melancia, folhosas: todos com reajustes expressivos
- Qualidade inferior: produtos chegam mais caros e com vida de prateleira reduzida
Eduardo Stangherlin, vice-presidente da Agas, admite a dificuldade: “São produtos que vêm com qualidade bem inferior. Buscamos em Goiás, São Paulo, mas São Paulo tem o mesmo problema de chuva.”
O efeito cascata no orçamento doméstico
A técnica em secretariado Sandra Mariani faz a conta: “Dois reais, um real… no final do mês, bota tudo na ponta do lápis, é caro.” A aposentada Vilma Gonçalves tentou substituir — batata por aipim, batata-doce — mas esbarrou nas folhas: “A saladinha verde tradicional, não tem como, né?”
A substituição de itens básicos por alternativas mais baratas tem limite. Quando a categoria inteira sobe, o poder de compra real encolhe.
O que observar daqui para frente
A janela climática das próximas três semanas definirá se há recuperação parcial ou se a quebra se estende ao verão. Dois vetores merecem atenção: a normalização do regime de chuvas no Sul e a capacidade de oferta das regiões fornecedoras alternativas — que já operam no limite. Se o tempo não abrir, a pressão inflacionária sobre hortigranjeiros deve persistir pelo menos até o primeiro trimestre de 2025, com reflexos nos índices de preços ao consumidor e nas margens do varejo alimentar.
