Economia

O segredo que ninguém conta sobre o plano de carne barata de Trump…

Gráfico mostrando queda nas importações de carne bovina dos EUA versus promessa de Trump
Importações extras de carne mal passam de 59 mil toneladas contra 300 mil prometidas em 90 dias.

O decreto que prometia inundar o mercado americano com 300 mil toneladas de carne bovina barata em 90 dias entregou, até agora, apenas uma fração do volume e quase nenhum alívio no bolso do consumidor. Dois meses após a assinatura, as importações extras mal passam de 59 mil toneladas. A pergunta que fica: por que a engrenagem travou justamente no ano eleitoral?

O volume real versus a promessa de campanha

Em agosto, a Casa Branca liberou cotas mensais de 100 mil toneladas com tarifa reduzida para aparas magras — matéria-prima essencial para a carne moída. Setembro fechou com 37.486 toneladas entradas. Até 19 de outubro, o número caía para 21.937 toneladas. Juntas, representam menos de 20% do teto autorizado para o período.

Para efeito de comparação, os EUA importaram 1,9 milhão de toneladas de todos os cortes bovinos em 2023. A cota extra, mesmo se preenchida, seria uma gota no oceano. O economista James Mitchell, da Universidade do Arkansas, estima que entre 41% e 79% do volume registrado em setembro entraria de qualquer forma, sem o decreto.

Por que os importadores não aproveitaram a janela?

A resposta passa por logística e custos ocultos. A carne precisa ser certificada, transportada e processada em janelas curtas. Com a tarifa padrão já baixa para parceiros como Austrália, Brasil e Nova Zelândia, a economia marginal da cota especial não cobre o frete extra e a burocracia de última hora.

  • Tarifa padrão: Já próxima de zero para principais fornecedores.
  • Janela: 90 dias — curto para contratos de longo prazo.
  • Rastreabilidade: Impossível separar a carne “subsidiada” no processamento.

O impacto invisível no varejo

Trump afirmou que a carne chegaria “25% abaixo do preço de mercado”. Em setembro, o quilo da carne moída caiu 1,9% (de US$ 6,92 para US$ 6,79 a libra). Um ano antes, custava US$ 6,32. A queda sazonal pós-verão explica a variação melhor que o decreto.

Ted Schroeder, da Universidade Estadual do Kansas, resume: “Assim que se mistura a aparas importada com a gordura nacional, perde-se a rastreabilidade. Não há como o supermercado dar desconto só no pacote que veio da cota nova”. No atacado, os preços das aparas magras mal se moveram.

O cálculo político e o risco para o pecuarista

O movimento mirava o eleitor sensível à inflação de alimentos, mas assustou a base rural. No dia do anúncio, o gado vivo caiu 3,4%. A Associação de Pecuaristas de Oklahoma alertou: “Resolvem um problema de curto prazo e criam um de longo prazo para a oferta”. O temor é que a intervenção repetida incentive o abate de matrizes, encolhendo o rebanho futuro.

Desde então, os preços do gado se recuperaram, sinalizando que o mercado precificou o risco regulatório como temporário.

O que observar daqui para frente

A cota expira em novembro. Se o volume não acelerar, o decreto entra para a história como gesto simbólico sem efeito prático. Para o investidor, três variáveis importam: o ritmo de abate de fêmeas nos EUA nos próximos trimestres, a taxa de câmbio do real frente ao dólar (que dita a competitividade do Brasil) e a disposição da Casa Branca em renovar ferramentas de intervenção de preços em ano de midterms. O preço da carne moída no varejo, por enquanto, segue ditado por fundamentos — não por decretos.