Justiça

Você não vai acreditar: a maratona final de Lula e Flávio Bolsonaro em 20 dias

Lula e Flávio Bolsonaro em campanha no segundo turno, mapa do Sudeste em destaque
Candidatos concentraram agendas nos três maiores colégios eleitorais em 20 dias de segundo turno.

Em 20 dias de segundo turno, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) concentraram as agendas oficiais nos três maiores colégios eleitorais do país, responsáveis por 41,78% do eleitorado nacional. A estratégia confirmou a tendência do primeiro turno, mas a logística adotada revelou uma maratona intensa: ambos chegaram a visitar três cidades diferentes em menos de 24 horas. O detalhe que chama a atenção, porém, está na inversão de rota feita por uma das campanhas.

O peso do Sudeste na calculadora eleitoral

Dados do IBGE mostram que São Paulo (21,48%), Minas Gerais (10,32%) e Rio de Janeiro (8,10%) somam quase metade dos votos do Brasil. Não por acaso, as rotas dos dois candidatos giraram em torno desse eixo. Lula esteve nas ruas em oito dias, percorrendo oito estados e o Distrito Federal. Flávio Bolsonaro cumpriu agenda em nove estados e no DF ao longo dos 20 dias.

O recorte partidário desses deslocamentos expõe o xadrez: nos estados visitados por Lula, ele havia vencido em quatro e perdido em cinco na etapa anterior. Já Flávio Bolsonaro foi a seis locais onde liderou no primeiro turno e a quatro onde ficou atrás.

A logística insana: mais de uma cidade por dia

A marca do segundo turno foi a multiplicidade de compromissos diários. Flávio Bolsonaro recorreu a essa tática em cinco datas distintas. A operação incluiu dobradinhas metropolitanas — como São Gonçalo e Rio de Janeiro — e voos longos ligando regiões diferentes no mesmo dia:

  • Vitória (ES) e Salvador (BA);
  • Marabá (PA) e Manaus (AM);
  • Guarulhos (SP) e Fortaleza (CE);
  • Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

Lula adotou o mesmo recurso em três ocasiões. A mais extensa cruzou três estados nordestinos em sequência: São Luís (MA), Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). Nos dias finais, o petista dividiu o tempo entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Capitais versus interior: a inversão de Flávio

A maior mudança tática partiu da campanha do PL. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro priorizou o interior: foram 22 atos fora das capitais contra 18 nas metrópoles. O objetivo era consolidar palanques regionais no Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Norte.

No segundo turno, a lógica inverteu completamente. Foram 14 compromissos em capitais e no Distrito Federal diante de apenas quatro em municípios do interior ou regiões metropolitanas — restritos a São Gonçalo (RJ), Capelinha (MG), Marabá (PA) e Guarulhos (SP). O foco migrou para as grandes cidades, com ênfase especial no Nordeste.

Já a estratégia de Lula manteve a coerência. Desde a primeira etapa, o petista ancorou a campanha nos grandes centros urbanos: 18 agendas em capitais contra oito no interior inicialmente. Na reta final, manteve a proporção com oito atos em capitais/DF e quatro no interior, direcionados a articulações específicas em Juiz de Fora, Ipatinga (MG) e na dobradinha do Vale do São Francisco.

Minas Gerais: o pêndulo que Lula não largou

Derrotado em Minas no primeiro turno — estado histórico “pêndulo” e decisivo —, Lula usou o segundo turno para marcar presença física no território mineiro. As passagens por Juiz de Fora e Ipatinga não foram simbólicas; funcionaram como resposta direta à vantagem aberta pelo adversário no maior colégio do Sudeste fora de São Paulo.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro reduziu a exposição no interior mineiro a uma única parada em Capelinha, sinalizando confiança na vantagem já construída ou realocação de recursos para frentes mais disputadas.

O palco final: Rio de Janeiro decide o tom

O último sábado de campanha selou a importância do terceiro maior colégio eleitoral. Os dois candidatos escolheram o Rio de Janeiro para o ato derradeiro, em horários alternados. Flávio Bolsonaro iniciou a manhã em Belo Horizonte, ao lado de aliados como Nikolas Ferreira (PL-MG), e seguiu para a capital fluminense à tarde. O estado é o berço político da família e onde o candidato saiu na frente no primeiro turno.

Lula, por sua vez, fez uma caminhada na orla de Copacabana pela manhã e encerrou a jornada na Avenida Paulista, em São Paulo — capital onde venceu a etapa anterior, apesar da derrota no estado. O contraste de cenários resume a disputa: um reforça o reduto de origem, o outro tenta virar o maior colégio do país.

O que observar daqui para frente

A concentração de 80% dos esforços de rua em apenas três estados expõe a matemática fria da eleição: o custo por voto nas regiões menos populosas torna-se proibitivo na reta final. Para analistas de risco político, o termômetro agora migra para a capacidade de transferência de votos dos palanques estaduais montados no primeiro turno — especialmente nos três estados do Nordeste (Acre, Espírito Santo e Tocantins) que tiveram segundo turno para governador e não receberam nenhum presidenciável. A eficiência logística mostrada nas maratonas de múltiplas cidades por dia deve ditar o padrão das futuras campanhas nacionais em janelas curtas.