Economia

O segredo do “Ministério da Prosperidade”: Caixa e BB na mira de Flávio Bolsonaro…

Flávio Bolsonaro e Daniella Marques com logotipos da Caixa e Banco do Brasil ao fundo
Senador planeja criar "Ministério da Prosperidade" com Caixa e BB fora da Fazenda

O senador Flávio Bolsonaro (PL) estuda retirar a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil do guarda-chuva da Fazenda para subordiná-los a um novo superministério social, caso vença o segundo turno no domingo (25). A manobra colocaria as duas maiores instituições financeiras públicas a serviço direto de programas de renda e empreendedorismo.

A articulação tem nome e sobrenome: Daniella Marques. Ex-presidente da Caixa e atual coordenadora econômica da campanha, ela é a favorita para comandar a pasta, batizada internamente de Ministério da Prosperidade. A jogada resolve dois problemas de uma vez: prestigia uma aliada leal e tenta blindar o flanco do eleitorado feminino.

Por que mexer na estrutura dos bancos agora?

Hoje, Caixa e BB respondem ao Ministério da Fazenda. A mudança proposta altera a lógica de gestão: o foco sai da ortodoxia fiscal e entra na execução de políticas públicas de alto impacto eleitoral. Habitação, microcrédito e benefícios sociais passariam a ter comando unificado.

Mas a ideia racha a equipe de transição. Técnicos alertam que a Caixa opera obras regionais e o Minha Casa, Minha Vida — atividades que extrapolam a agenda social pura. Forçar esse enquadramento pode criar gargalos operacionais e conflitos de competência com a área econômica central.

O xadrez político por trás das indicações

O comando dos bancos públicos moeda de troca poderosa no Centrão. Atualmente:

  • Caixa: Presidida por Carlos Vieira, indicação de Arthur Lira (PP-AL).
  • Banco do Brasil: Comandado por Tarciana Medeiros, indicação do PT.

Entregar as chaves para o Ministério da Prosperidade significaria arrancar esses ativos da negociação parlamentar tradicional. É um movimento de centralização de poder que deve enfrentar resistência feroz no Congresso.

O fantasma do consignado do Auxílio Brasil

A proximidade de Marques com o uso eleitoral da máquina estatal pesa na análise de risco. Em outubro de 2022, sob sua gestão, a Caixa liberou R$ 7,6 bilhões em consignado para beneficiários do Auxílio Brasil — parte de um total de R$ 9,5 bilhões no sistema. A linha foi suspensa dias após a derrota de Jair Bolsonaro e extinta no governo Lula.

O TCU chegou a abrir investigação por uso político da estrutura, mas arquivou o processo em 2024. O episódio, contudo, permanece como precedente sensível para quem defende a autonomia técnica dos bancos.

O plano “Banco da Prosperidade” e o programa Ganha-Ganha

No programa de governo registrado no TSE, Flávio propõe transformar a Caixa no “Banco da Prosperidade”. A promessa: deixar de ser apenas operadora de benefícios para virar agente de construção de patrimônio.

O carro-chefe seria o Ganha-Ganha: um cadastro positivo comportamental. O cliente acumula pontos ao concluir cursos de qualificação ou formalizar negócios. A recompensa viria em juros menores, cashback e crédito facilitado. O Banco do Brasil, curiosamente, não aparece no texto oficial.

A frase que assustou o mercado e a resposta da campanha

Em setembro, no Grupo Esfera, Marques afirmou que “antes de qualquer nome, mesmo um Banco do Brasil poderia” ser privatizado, citando a negociação abaixo do patrimônio líquido. A declaração gerou pânico interno na instituição.

O coordenador econômico Adolfo Sachsida correu para apagar o incêndio: “Você que está no Banco do Brasil, Caixa e Petrobras, não tem privatização coisa nenhuma. Podem ficar tranquilos”. O compromisso público tenta selar a paz com o funcionalismo e o mercado, mas a ambiguidade permanece.

O que observar daqui para frente

Se eleito, Flávio terá de nomear a equipe na primeira semana. Três sinais dirão para onde o vento sopra: se Marques assume mesmo a Prosperidade com os bancos na alça; se a Fazenda aceita a perda de controle sem retaliar na política fiscal; e se o Centrão engole a perda da Caixa sem cobrar a fatura em outras frentes. O desenho final dessa engenharia institucional ditará o ritmo do crédito, da habitação e da relação do Planalto com o sistema financeiro nos próximos quatro anos.