Tecnologia

IA prevê qualidade da água com 90% de acurácia: o segredo dos rios paulistas

Pesquisadores da Unesp analisam dados de qualidade da água no rio Paraíba do Sul com apoio de inteligência artificial
Modelo de IA desenvolvido pela Unesp preenche lacunas no monitoramento hídrico do Vale do Paraíba com 90% de acurácia

Uma pesquisa da Unesp de Guaratinguetá desenvolveu um modelo de inteligência artificial capaz de preencher lacunas no monitoramento hídrico do Vale do Paraíba com margem de erro inferior a 10%. A tecnologia surge como resposta direta às falhas de coleta durante a pandemia e promete transformar a gestão de recursos hídricos no interior paulista.

O problema que ninguém via

Entre 2020 e 2021, as equipes da Cetesb enfrentaram dificuldades operacionais severas. Coletas presenciais foram suspensas ou atrasadas, criando buracos temporais nas séries históricas do sistema Infoáguas. Sem dados contínuos, o cálculo do Índice de Qualidade da Água (IQA) tornava-se impreciso justamente quando a vigilância sanitária mais precisava dele.

Foi essa lacuna que motivou o engenheiro Wilson dos Santos Júnior a buscar uma alternativa computacional durante seu mestrado. A solução não substitui o trabalho de campo — ela o protege contra interrupções.

Como o algoritmo aprende com o passado

O modelo foi treinado com uma década de registros: dados da Cetesb referentes a 2013-2023. Temperatura, pH, coliformes e demais parâmetros do IQA alimentaram redes neurais capazes de identificar padrões sazonais, correlações entre variáveis e respostas a eventos climáticos extremos.

Duas estratégias foram testadas:

  • Previsão direta do IQA: erro médio abaixo de 10%
  • Estimação individual dos parâmetros ausentes + cálculo do índice: erro aproximadamente metade do anterior

A segunda abordagem mostrou-se superior porque preserva a física subjacente aos parâmetros antes de agregá-los no índice final.

Além do preenchimento de falhas

A pesquisadora Marcela Machado, orientadora do trabalho, destaca que a ferramenta abre portas para análises preditivas. Ao cruzar os dados de qualidade com séries históricas de precipitação, torna-se possível antecipar como secas prolongadas ou chuvas intensas alterarão a potabilidade e a saúde ecossistêmica dos rios.

Essa capacidade de cenarização interessa diretamente a concessionárias de saneamento, indústrias captadoras e órgãos de planejamento territorial. Decisões sobre outorgas, tratamento e contingência ganham base quantitativa mais robusta.

O que observar daqui para frente

A tecnologia está pronta para testes em escala operacional. Os próximos passos envolvem validação em tempo real junto à Cetesb e expansão para outras bacias do estado. Para gestores e investidores, o sinal é claro: a lacuna entre coleta pontual e monitoramento contínuo está se fechando — e quem souber usar essa inteligência antecipará riscos regulatórios e operacionais com meses de vantagem.