Uma pesquisa da Unesp de Guaratinguetá desenvolveu um modelo de inteligência artificial capaz de preencher lacunas no monitoramento hídrico do Vale do Paraíba com margem de erro inferior a 10%. A tecnologia surge como resposta direta às falhas de coleta durante a pandemia e promete transformar a gestão de recursos hídricos no interior paulista.
O problema que ninguém via
Entre 2020 e 2021, as equipes da Cetesb enfrentaram dificuldades operacionais severas. Coletas presenciais foram suspensas ou atrasadas, criando buracos temporais nas séries históricas do sistema Infoáguas. Sem dados contínuos, o cálculo do Índice de Qualidade da Água (IQA) tornava-se impreciso justamente quando a vigilância sanitária mais precisava dele.
Foi essa lacuna que motivou o engenheiro Wilson dos Santos Júnior a buscar uma alternativa computacional durante seu mestrado. A solução não substitui o trabalho de campo — ela o protege contra interrupções.
Como o algoritmo aprende com o passado
O modelo foi treinado com uma década de registros: dados da Cetesb referentes a 2013-2023. Temperatura, pH, coliformes e demais parâmetros do IQA alimentaram redes neurais capazes de identificar padrões sazonais, correlações entre variáveis e respostas a eventos climáticos extremos.
Duas estratégias foram testadas:
- Previsão direta do IQA: erro médio abaixo de 10%
- Estimação individual dos parâmetros ausentes + cálculo do índice: erro aproximadamente metade do anterior
A segunda abordagem mostrou-se superior porque preserva a física subjacente aos parâmetros antes de agregá-los no índice final.
Além do preenchimento de falhas
A pesquisadora Marcela Machado, orientadora do trabalho, destaca que a ferramenta abre portas para análises preditivas. Ao cruzar os dados de qualidade com séries históricas de precipitação, torna-se possível antecipar como secas prolongadas ou chuvas intensas alterarão a potabilidade e a saúde ecossistêmica dos rios.
Essa capacidade de cenarização interessa diretamente a concessionárias de saneamento, indústrias captadoras e órgãos de planejamento territorial. Decisões sobre outorgas, tratamento e contingência ganham base quantitativa mais robusta.
O que observar daqui para frente
A tecnologia está pronta para testes em escala operacional. Os próximos passos envolvem validação em tempo real junto à Cetesb e expansão para outras bacias do estado. Para gestores e investidores, o sinal é claro: a lacuna entre coleta pontual e monitoramento contínuo está se fechando — e quem souber usar essa inteligência antecipará riscos regulatórios e operacionais com meses de vantagem.
