Cinco nomes de Minas Gerais transformaram seguidores em votos e hoje ditam o ritmo da política nacional. A migração do palanque para o feed reescreveu as regras do jogo eleitoral — e quem não entende esse movimento fica para trás.
Os cinco nomes que viraram máquina de mobilização
Cleitinho Azevedo (Republicanos) saiu de verdureiro e músico para o governo do estado com 6,3 milhões de votos (55,4% dos válidos). No Instagram, reúne 4,9 milhões de seguidores. Sua estética: celular na mão, camisa de time, linguagem direta. Gastou apenas R$ 20,7 mil em impulsionamento — 2% do total da campanha.
Nikolas Ferreira (PL) bateu recorde histórico: 3,1 milhões de votos para deputado federal, a maior votação do cargo no país. São 25,2 milhões de seguidores no Instagram. O investimento em anúncios foi de R$ 123 mil (9,94% do total).
Ana Elisa (PT), aos 21 anos, tornou-se a deputada federal mais jovem eleita desde 1994: 524 mil votos. No digital, 5,4 milhões de seguidores. Impulsionamento de R$ 28 mil (3% do total).
André Janones (Rede) manteve o mandato com 78,7 mil votos, mas perdeu mais de 160 mil em relação a 2022. Ainda assim, comanda 6,7 milhões no Instagram e o canal “Exército do Lula” com 8,6 milhões de participantes. A diferença: 81% do orçamento de campanha (R$ 1,37 milhão) foi para impulsionamento.
Duda Salabert (PSOL), primeira mulher trans eleita deputada federal por MG, cresceu: 229 mil votos (21 mil a mais que 2022). No Instagram, 894 mil seguidores. Gastou R$ 150 mil em anúncios (8,46% do total).
Quanto custa cada voto digital — a tabela que explica a estratégia
| Político | Seguidores (IG) | Votos | Gasto c/ impulsionamento | % do total |
|---|---|---|---|---|
| Cleitinho Azevedo | 4,9 mi | 6,3 mi | R$ 20,7 mil | 2% |
| Nikolas Ferreira | 25,2 mi | 3,1 mi | R$ 123 mil | 9,94% |
| Ana Elisa | 5,4 mi | 524 mil | R$ 28 mil | 3% |
| André Janones | 6,7 mi | 78,7 mil | R$ 1,37 mi | 81% |
| Duda Salabert | 894 mil | 229 mil | R$ 150 mil | 8,46% |
O algoritmo não perdoa: polarização como modelo de negócio
Para o cientista político Camilo Aggio (UFMG/INCT.DD) e o especialista em marketing Matheus Felipe (UNINTER), as plataformas recompensam o conflito. “O que gera indignação circula mais que o debate ponderado”, resume Felipe. Cada curtida, compartilhamento ou comentário — mesmo negativo — sinaliza interesse ao algoritmo.
O resultado é a formação de “tribos digitais” fechadas em torno de identidades e valores. Aggio alerta: “Quando o adversário vira inimigo e ideias viram dogmas, perdemos o repertório comum essencial à democracia.” A disputa deixa de ser entre adversários e passa a ser entre inimigos.
O eleitor já vive no feed — e os números provam
Segundo o Digital News Report 2025 (Reuters Institute), 54% dos brasileiros têm as redes sociais como principal fonte de informação. Desde a liberação do impulsionamento eleitoral em 2017 (Lei 13.488/2017), os gastos na Meta saltaram de R$ 23,2 milhões (2018) para R$ 167,3 milhões em 2026 — valor registrado dez dias antes do primeiro turno. O impulsionamento tornou-se a principal despesa de campanha.
O que observar daqui para frente
A concentração de atenção em poucos perfis cria dependência de algoritmos opacos e de audiências que podem migrar da noite para o dia. Para empresários e investidores, o recado é claro: influência política hoje se mede em engajamento orgânico e capacidade de ativar redes — não apenas em tempo de TV ou estrutura partidária. Acompanhe quem constrói comunidade, não apenas quem compra alcance. O próximo ciclo eleitoral será vencido por quem transformar seguidores em organizadores territoriais.
