A Bolsa subiu 15,3% e o dólar caiu 2% desde agosto, embalados pela expectativa de alternância no Planalto. Faltando dois dias para o segundo turno, a euforia deu lugar a um silêncio tenso nos terminais de negociação.
O Ibovespa fechou a sexta-feira (23) aos 205.082 pontos — alta de 27 mil pontos em menos de três meses. O dólar, que custava R$ 5,087 em 3 de agosto, encerrou a semana a R$ 4,989. Números que, sozinhos, contam apenas metade da história.
O que os 73 gestores do Citi estão apostando de verdade
Um levantamento exclusivo com gestores de fundos de ações e multimercados revela um cenário assimétrico. Se o senador vencer, 49,3% projetam alta superior a 5% no Ibovespa; 48% veem ganho de 1% a 5%. No câmbio, 78% esperam o real valorizando 2% a 5%.
Mas é no cenário inverso que o risco fica explícito: 80% preveem queda superior a 5% na Bolsa e 63% apostam em desvalorização do real acima de 5% se o atual presidente for reeleito.
- Vitória da oposição: Bolsa +5% (quase metade dos gestores) | Dólar -2% a -5%
- Reeleição: Bolsa -5% (80% dos gestores) | Dólar +5% (63% dos gestores)
Por que a alta pode ser menor daqui pra frente
Ricardo Pompermaier, da Davos Investimentos, vê continuidade da melhora pós-primeiro turno com queda dos juros futuros e alta da Bolsa, impulsionada pela expectativa de ajuste fiscal. O real, porém, teria espaço limitado pelo cenário externo.
Helena Veronese, da B.Side, alerta: parte do movimento já ocorreu. “Existe chance de correção muito mais forte se o atual presidente ganhar, pegando o mercado de surpresa.”
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
Small caps e varejo: os nomes que mais sobem — e mais caem
Luccas Fiorelli, planejador financeiro CFP, estima que uma vitória da oposição ainda abre espaço para nova alta, mas em duas etapas: confirmação do resultado e, entre novembro e dezembro, anúncio da equipe econômica. O alvo? Small caps, varejo e construtoras — setores sensíveis a juros menores.
O movimento, contudo, seria menor que os 7,7% de alta do Ibovespa em um único pregão após o primeiro turno.
O risco de devolver tudo (e mais um pouco)
Se o cenário se inverter, Fiorelli projeta correção de 15% a 20% no Ibovespa. Os mais vulneráveis: small caps, varejo, construtoras e consumo doméstico. Exportadoras e empresas defensivas ganhariam resiliência com dólar alto.
Rodrigo Moliterno, da Veedha, prevê reação intensa na abertura, com investidores desfazendo posições montadas na expectativa de mudança. Mesmo na vitória da oposição, realização de lucros não está descartada.
O que observar daqui pra frente
A melhora recente dos juros futuros reflete probabilidade de alternância, não mudança efetiva nos fundamentos, resume Eduardo Amorim, da Manchester. Ainda há indefinições sobre propostas fiscais, equipe econômica e capacidade de execução.
O próximo mês separa promessas de medidas concretas. Quem leu até aqui sabe: o mercado já votou. As urnas é que vão confirmar — ou rasgar — o roteiro.
