O senador Flávio Bolsonaro (PL) estuda retirar a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil do guarda-chuva da Fazenda para colocá-los sob um superministério social, caso vença o segundo turno no domingo (25). A informação vem de fontes próximas à campanha ouvidas pela reportagem.
A manobra tem nome e sobrenome: Daniella Marques. Ex-presidente da Caixa no fim do governo Jair Bolsonaro, ela é a favorita para comandar a pasta — que deve se chamar Ministério da Prosperidade e absorver também políticas para mulheres, empreendedorismo e trabalho.
Por que isso muda o jogo para os bancos públicos
Hoje, Caixa e BB respondem ao Ministério da Fazenda. A mudança de alçada não é apenas burocrática: ela redesenha quem controla a liberação de crédito, a gestão de programas habitacionais e a operação de benefícios sociais.
Marques não é uma novata. Em 2022, à frente da Caixa, ela supervisionou a oferta de empréstimo consignado a beneficiários do então Auxílio Brasil. Foram R$ 9,5 bilhões liberados até 1º de novembro, dos quais R$ 7,6 bilhões saíram do banco estatal. A linha foi suspensa após a derrota de Jair Bolsonaro e extinta na gestão Lula.
O xadrez político por trás da nomeação
A proximidade de Marques com Flávio resistiu a turbulências. Quando o candidato entrou em rota de colisão com Michelle Bolsonaro, a ex-presidente da Caixa manteve-se leal — o que ajudou a campanha a manter diálogo com o eleitorado feminino.
Chegou a ser cotada para vice, mas o Republicanos, partido ao qual era filiada, vetou a aliança com o PL. Também apareceu como opção para a Fazenda, mas perdeu força na reta final do primeiro turno. Turbinar o ministério social com os dois bancos seria, na prática, o prêmio de consolação definitivo.
Não há consenso na equipe
Auxiliares de Flávio alertam: a Caixa não vive só de programas sociais. O banco toca obras regionais, o Minha Casa, Minha Vida e atua como braço político cobiçado pelo centrão. Hoje, a presidência está com Carlos Vieira, indicação de Arthur Lira (PP-AL). O BB, por sua vez, é comandado por Tarciana Medeiros, nome do PT.
Transferir as duas instituições para uma pasta social concentraria poder inédito em uma única ministra — e acirraria a disputa por cargos no segundo escalão.
O que diz o plano de governo
No programa registrado no TSE, Flávio promete transformar a Caixa no “Banco da Prosperidade”. A ideia central é o programa “Ganha-Ganha”: o cliente acumula pontos ao concluir cursos de qualificação ou formalizar negócios, e troca por juros menores, cashback e crédito facilitado.
O Banco do Brasil não é citado no documento. Mas uma fala de Marques em setembro, no Grupo Esfera, gerou ruído. Questionada sobre privatizações, ela disse: “Antes de qualquer nome, mesmo um Banco do Brasil poderia… negocia hoje menos de uma vez o patrimônio”.
O recado da equipe econômica
O coordenador Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia, correu para apagar o incêndio. Em vídeo nas redes, afirmou: “Você que está em Banco do Brasil, Caixa e Petrobras, não tem privatização coisa nenhuma. Podem ficar tranquilos”.
Sachsida já havia se comprometido publicamente com o fortalecimento da gestão das estatais, não com sua venda. O discurso alinha-se ao de 2019, quando o primeiro presidente do BB no governo Bolsonaro, Rubem Novaes, defendeu a privatização — e foi contido pelo próprio Jair Bolsonaro.
O que observar daqui para frente
Se eleito, Flávio terá de confirmar Marques no ministério e negociar a transferência dos bancos com o Congresso e com os atuais padrinhos políticos das instituições. O desenho final da “Prosperidade” ainda está aberto: pode incluir trabalho, empreendedorismo e políticas para mulheres — ou ficar restrito a benefícios e habitação.
Para o investidor e o empresário, o sinal claro é: a governança dos bancos públicos entrará em zona de turbulência nos primeiros 100 dias. Acompanhe a nomeação do novo presidente da Caixa e a reação do mercado à eventual mudança de alçada. O tamanho da interferência política no crédito será o termômetro real da nova gestão.
