Estados Unidos e Paraguai selaram uma aliança para construir um mega centro de computação de inteligência artificial alimentado 100% pela Usina de Itaipu, deixando o Brasil fora do anúncio oficial. O projeto, capitaneado pela americana Crusoe e pela paraguaia Araico, prevê capacidade inicial de 280 megawatts de TI — energia suficiente para rodar modelos de larga escala com custo operacional drasticamente menor. A jogada sinaliza uma mudança geopolítica na infraestrutura de IA na América do Sul.
Como funciona o modelo que atraiu o capital americano
A tese é direta: instalar o processamento onde a energia é abundante, renovável e barata. A Crusoe ficará responsável pela operação da nuvem e do hardware de alta performance, enquanto a Araico cuida da infraestrutura local anexa à subestação de Itaipu, no lado paraguaio.
O vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, classificou o empreendimento como potencialmente o maior investimento privado estrangeiro da história do Paraguai. Para o presidente Santiago Peña, a parceria traz empregos qualificados, transferência de tecnologia e um modelo replicável para o desenvolvimento industrial do país.
Por que o Brasil não estava na foto
A gestão de Itaipu é binacional, regida pelo Tratado de 1973, com conselhos de administração paritários entre brasileiros e paraguaios. No entanto, a negociação comercial para uso da energia excedente do lado paraguaio não exige anuência prévia do Brasil, desde que respeitados os limites contratuais de cada margem.
Especialistas em energia apontam que o Paraguai consome apenas uma fração de sua cota de 50% da geração da usina. O excedente histórico, antes vendido ao Brasil a preços de custo, agora encontra um comprador disposto a pagar prêmio por estabilidade e “green energy” certificada para data centers.
Os números que fazem sentido para o investidor
- Capacidade alvo: 280 MW de carga de TI (não apenas potência instalada).
- Fonte: 100% hidrelétrica, base contínua (não intermitente como solar/eólica).
- Localização: Hernandárias, ao lado da subestação de 500 kV.
- Marco diplomático: Paraguai assinou a Declaração Pax Silica (23/05), alinhando-se a 25 nações em cadeias de suprimento de IA.
O efeito cascata na geopolítica do silício
A adesão à Pax Silica coloca Assunção no mesmo bloco de Austrália, Coreia do Sul, Japão, Índia, Israel, Reino Unido e União Europeia. Na América do Sul, apenas Argentina e Chile figuram na lista até agora. O movimento indica que o Paraguai está deixando de ser apenas exportador de commodities e energia bruta para se posicionar como hub de infraestrutura crítica.
Mas o efeito mais relevante aparece na dinâmica de custos. Treinar modelos de fundação (LLMs) exige gigawatts-hora contínuos. A tarifa de energia no Paraguai, historicamente atrelada ao custo de serviço da usina, oferece uma vantagem comparativa difícil de replicar em mercados livres voláteis como o brasileiro ou o texano.
O que observar daqui para frente
O cronograma de implantação e a capacidade de a Araico entregar a infraestrutura civil e de refrigeração no prazo ditam o ritmo do retorno. Outro ponto de atenção é a renegociação do Anexo C do Tratado de Itaipu, prevista para 2023 mas ainda em curso: qualquer alteração na base de cálculo da tarifa de energia excedente impacta diretamente a viabilidade econômica de longo prazo do projeto.
Por fim, a escalabilidade além dos 280 MW iniciais dependerá da disponibilidade de fibra óptica de ultra-baixa latência conectando Hernandárias aos principais eixos de consumo de nuvem em São Paulo, Miami e Virgínia. Se o “gargalo da conexão” for resolvido, o Paraguai deixa de ser coadjuvante e vira peça-chave no tabuleiro global de compute.
