Uma pesquisa do Citibank com 73 gestores de fundos multimercado e de ações revela um cenário de volatilidade extrema para a abertura da Bolsa na próxima segunda-feira (26), logo após o segundo turno. A divergência de expectativas não é apenas técnica: ela expõe um abismo de mais de 10% nas projeções para o Ibovespa, dependendo apenas de quem ocupar o Planalto.
O levantamento deixa claro que o mercado já precificou dois filmes completamente diferentes. De um lado, a continuidade de um ajuste fiscal percebido como rigoroso. Do outro, a volta de uma gestão associada a maior expansão de gastos. A distância entre essas narrativas dita o ritmo do risco Brasil agora.
O cenário “Flávio Bolsonaro”: otimismo concentrado nos ativos de risco
Se o candidato do PL confirmar a liderança do primeiro turno, a maioria absoluta dos gestores aposta em festa na B3. Quase metade (49,3%) projeta alta superior a 5% para o Ibovespa, enquanto outros 48% veem ganhos moderados, entre 1% e 5%. Apenas uma minoria residual (2,7%) admite queda.
No câmbio, o otimismo é ainda mais concentrado: 78,1% esperam valorização do real entre 2% e 5% frente ao dólar, e 9,6% veem espaço para ganhos acima de 5%. A curva de juros futura acompanha o alívio — 54,9% estimam recuo de 50 a 100 pontos-base no DI para janeiro de 2029.
- Bolsa: 97,3% veem alta (maioria acima de 5%)
- Dólar: 87,7% projetam real mais forte
- Juros: Maioria aposta em queda de até 100 pontos-base
Essa configuração reflete a leitura de que uma vitória do PL reforça a âncora fiscal, reduzindo o prêmio de risco do país e, por tabela, o custo de capital das empresas.
O cenário “Lula”: venda generalizada e risco de circuit breaker
O lado inverso da moeda assusta pela simetria brutal. Em caso de vitória do petista, 80% dos entrevistados preveem tombo superior a 5% no Ibovespa. Somados aos 7% que projetam queda entre 1% e 5%, atinge-se 87% dos gestores apostando em perdas.
O câmbio espelha o estresse: 63% veem o dólar subindo mais de 5% (real caindo na mesma proporção) e 28% projetam alta entre 2% e 5%. Nos juros, o choque é profundo — 67% esperam alta superior a 100 pontos-base no DI longo, com outros 14% vendo avanço de 50 a 100 pontos.
Mas o dado mais crítico não está nas porcentagens: está no gatilho mecânico. Uma queda acima de 10% no Ibovespa aciona o circuit breaker, paralisando os negócios por 30 minutos. Se a baixa chegar a 15% na reabertura, a Bolsa para por uma hora. Gestores ouvidos pelo banco não descartam o acionamento.
O que está em jogo: o “ganho do primeiro turno” pode virar pó
O pano de fundo torna tudo mais tenso. Após o primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente (47,03% contra 45,16%), a B3 saltou 7,70% no pregão seguinte, marcando recorde nominal e real (206.911 pontos). O dólar desabou 4,11%, a R$ 5,001 — maior recuo diário de fechamento desde 2018.
Todo esse prêmio de “alívio fiscal” está na mesa na segunda-feira. Uma virada eleitoral tem potencial para devolver, em poucas horas, semanas de valorização. A pesquisa Datafolha de quinta-feira (22) mostrou empate técnico: 50% a 50% nos votos válidos. A incerteza é total.
Por que a divergência é tão radical?
A leitura do mercado vai além de preferência partidária. A candidatura de Flávio Bolsonaro é lida como garantia de continuidade do arcabouço de controle de despesas e metas de resultado primário. Isso comprime o prêmio de risco soberano, derruba a curva de juros futuros e barateia o funding corporativo — combustível direto para valuation de ações.
Já a hipótese Lula traz à tona o fantasma da expansão fiscal via PEC da Transição ou revisão do teto de gastos, elevando a trajetória da dívida/PIB. O resultado: dólar caro, juros longos pressionados e Bolsa descontada.
O que observar daqui para frente
O pregão de segunda será o termômetro imediato, mas o investidor profissional deve monitorar três variáveis nas semanas seguintes: a composição do Ministério da Fazenda (nomes e autonomia), o envio da peça orçamentária de 2024 ao Congresso e a reação das agências de rating à nova configuração política. São esses fatores que dirão se o movimento de segunda foi um “overshooting” emocional ou o começo de uma nova tendência estrutural para o risco Brasil.
