Empresários brasileiros que miram as maiores reservas de petróleo do mundo esbarram em um novo gatekeeper: o Departamento de Estado dos EUA. Desde janeiro, nada anda em Caracas sem o aval de Marco Rubio — e a chave para destravar esse crivo pode estar na política doméstica brasileira.
Três grandes grupos já furaram a fila. A holding Alvorada, a Globe (dos irmãos Batista) e a Eneva (controlada pelo BTG Pactual) operam ou negociam ativos no país. Dezenas de outras observam de fora, calculando o risco de entrar sem a bênção americana.
Por que o sinal verde dos EUA virou pré-requisito
A Venezuela reabriu seu setor energético sob tutela direta de Washington. O encarregado de negócios John Barrett despacha de dentro do edifício da PDVSA, e a ministra Paula Henao coordena a revisão de contratos com olhar voltado para o que agrada — ou não — a Casa Branca.
O resultado prático: contratos de participação produtiva (CPPs) estão sendo reescritos para expulsar sócios ligados ao antigo regime, a Cuba, ao Irã ou a qualquer nome que cause “ojeriza” aos americanos. Para entrar, a regra não escrita é ser “amigo de Washington”.
O atalho que passa por Brasília
Fontes do setor ouvidas sob reserva apontam que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial alteraria a equação. A proximidade da família Bolsonaro com Donald Trump criaria um canal direto de negociação que o atual governo Lula não possui — e não construiu.
O distanciamento diplomático é mensurável: Lula não reconheceu a reeleição de Nicolás Maduro em 2024 e mantém relação fria com a gestão Trump. Sem ponte política, o empresariado brasileiro fica refém de intermediários ou da sorte.
Quem já está dentro — e o que fazem
- Alvorada: fundada em 2021, explora três campos na faixa do Orinoco desde 2023; anunciou expansão em abril.
- Globe (J&F): comprou cerca de 50% da Petrororaima (joint venture com a PDVSA) via subsidiária Fluxos; atua no Orinoco.
- Eneva: assinou memorando com a Halliburton para mapear áreas de desenvolvimento; aguarda liberação de blocos.
Procuradas, Globe e Eneva não quiseram vincular investimentos futuros ao resultado eleitoral. A Alvorada, em nota, afirmou que “uma mudança [de governo] tende a aproximar o Brasil da agenda americana para a região”.
Os números que explicam a corrida
A Venezuela detém 20% das reservas mundiais de petróleo. A produção atual ronda 1,2 milhão de barris/dia — muito abaixo dos 3 milhões/dia das décadas de 1960 e 1970 e dos 2 milhões/dia anteriores à crise de 2017. A exploração é majoritariamente onshore (em terra): retorno mais rápido e logística mais barata.
Gigantes como Chevron, Repsol e Eni ainda dominam, mas a fatia de novos entrantes cresce. Os EUA já fecharam concessão de cem anos para 17 campos em parceria com Alejandro Betancourt, empresário investigado por corrupção internacional — sinal de que o pragmatismo fala mais alto que o discurso.
Além do poço: a infraestrutura que virá junto
O interesse transborda o óleo. O Lide (grupo de João Doria) inaugurou unidade em Caracas sob comando de Tomas Alejandro Guzman. Ele relata procura de setores que orbitam a petroleira:
- Construção civil e reativação de pistas aéreas
- Formação de mão de obra especializada
- Impulsionamento agrícola para abastecer bases operacionais
- Serviços de relocation para expatriados
Cada campo que entra em operação arrasta uma cadeia de serviços — e reais — para um país que tenta reconstruir cidades inteiras ao redor da indústria.
O tabuleiro político que ainda não fechou
Uma transição negociada avança a passos lentos. Chavistas dialogam com a oposição representada por Dinorah Figuera (ex-presidente da Assembleia Nacional, exilada), mas María Corina Machado permanece excluída. Centenas de presos políticos foram soltos; novos ministros do Supremo são eleitos.
Nos bastidores, cogita-se eleição presidencial para o fim de 2028. Oficialmente, Trump e a vice-presidente Delcy Rodríguez dizem que “o país ainda não está pronto”. A incerteza é o único dado garantido.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o ritmo de entrada de capital brasileiro nos próximos 18 meses: (1) o desfecho da eleição presidencial no Brasil e seu impacto na relação com a Casa Branca; (2) a velocidade da revisão dos CPPs pela PDVSA sob supervisão americana; (3) a disposição de sócios locais em aceitar parceiros que tragam, junto com capital, o “selo de aprovação” de Washington. Quem chegar primeiro com a combinação certa — tecnologia, lastro financeiro e aval político — ficará com os ativos de menor risco e maior retorno. Os demais herdaram o que sobrar.
