Economia

O hub invisível: como Vorcaro usou as Bahamas para mover bilhões sem rastros

Edifício corporativo nas Bahamas usado como hub financeiro offshore para movimentação de bilhões
Sede da Mosaic em Nassau, Bahamas, apontada como central de distribuição de recursos do Banco Master para o exterior.

Investigadores mapearam um canal financeiro nas Bahamas que funcionava como central de distribuição de recursos do Banco Master para o exterior. O volume supera até mesmo a trilha que financiou o filme sobre Jair Bolsonaro. A pergunta que permanece: para onde foi todo esse dinheiro?

A Mosaic, instituição sediada em Nassau, não aparecia nos holofotes. Seu próprio site admite: foi “concebida para operar nos bastidores”. Mas, segundo a Polícia Federal, era por ali que Daniel Vorcaro fazia o dinheiro desaparecer do radar brasileiro.

O mapa do dinheiro: Bahamas → Delaware

O fluxo identificado pelos agentes ultrapassa os valores que passaram pelo fundo Havengate, nos EUA, administrado pelo advogado Paulo Calixto. Esse último ganhou notoriedade por receber recursos de Vorcaro para bancar o documentário “Dark Horse”. A rota bahamense, porém, movimentou cifras maiores — e com destino mais opaco.

Grande parte dos recursos seguiu para Delaware. O estado americano funciona, na prática, como um paraíso fiscal doméstico: empresas registradas lá não precisam revelar sócios ou gestores em registros públicos. O rastro some na fronteira da transparência.

Duas trilhas, uma mesma origem

Os investigadores trabalham com duas hipóteses principais sobre a relação entre os caminhos:

  • Operações independentes: Mosaic e Havengate serviam a propósitos diferentes
  • Estrutura integrada: ambos os canais faziam parte de um mesmo esquema de pulverização

O que já se sabe: a empresa Entre, de Antonio Carlos Freixo, intermediou pagamentos que passaram pela Mosaic. Freixo firmou acordo de colaboração com a PGR e o STF, o que o impede de se manifestar publicamente.

O movimento de volta: repatriação às pressas

Não era só saída. A PF apura se a Mosaic também serviu para trazer recursos de volta ao Brasil quando o caso Master eclodiu. A suspeita: pagar advogados e financiar campanhas midiáticas contra o Banco Central e rivais do ex-banqueiro.

Diálogos revelados pela revista piauí mostram Fabiano Zettel — cunhado, pastor e operador financeiro de Vorcaro — relatando o envio de R$ 20 bilhões para fora do país. Após a ofensiva das autoridades, o acesso a esse montante teria sido bloqueado.

O cerco jurídico e o destino dos ativos

O liquidante do Banco Master, a EFB Regimes Especiais, congelou os recursos na Mosaic e contratou empresa internacional para rastrear bens no exterior. Já há litígio aberto na Justiça americana.

De um lado, o liquidante argumenta que o dinheiro deve ressarcir credores e funcionários do Master. Do outro, a Mosaic sustenta que os recursos pertencem à União. O impasse trava a recuperação de valores que incluem quatro obras de arte avaliadas em quase US$ 20 milhões (cerca de R$ 104 milhões).

O pai, a prisão e o plano frustrado

Henrique Vorcaro, pai de Daniel, chegou a cogitar usar dinheiro da Mosaic para quitar dívidas trabalhistas no Brasil. A ideia não avançou: ele foi preso em maio deste ano. A medida reforça a tese de que a estrutura bahamense servia como reserva de liquidez para a família em momentos de crise.

O que observar daqui para frente

Três frentes definirão os próximos capítulos: a decisão da Justiça americana sobre o bloqueio na Mosaic, o avanço da PF no rastreamento dos beneficiários finais em Delaware, e o desdobramento do acordo de colaboração de Antonio Carlos Freixo. Cada uma pode revelar a extensão real da engenharia financeira — e quem, de fato, lucrou com ela.