O mercado financeiro comemorou a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno: o dólar caiu para R$ 5 e a Bovespa bateu 206 mil pontos. Mas, para Joseph Stiglitz, a euforia esconde uma armadilha perigosa.
O vencedor do Nobel de Economia de 2001 afirma que o programa do candidato do PL provocaria queda do PIB no curto prazo e destruição de investimentos estratégicos no longo prazo. A conta, segundo ele, será paga pelos mais pobres.
Por que o mercado está errado desta vez
Stiglitz, ex-economista-chefe do Banco Mundial e professor em Columbia, não vê contradição entre a festa dos investidores e seu diagnóstico sombrio. Os mercados, explica, operam no curtíssimo prazo: enxergam cortes de impostos e desregulamentação como “favoráveis aos negócios”.
O que ignoram é que uma economia em recessão não atrai capital produtivo. Sem investimento público em educação, infraestrutura e tecnologia, o Brasil perde competitividade estrutural — e isso, no fim, afasta o próprio capital que hoje aplaude.
A matemática perigosa do ajuste proposto
O núcleo da crítica de Stiglitz está na combinação de duas promessas: reduzir impostos para os muito ricos e cortar gastos simultaneamente. Na visão do economista, isso é contracionista na veia.
- PIB encolhe: menos gasto público + mesma arrecadação (ou menor) = contração da demanda agregada.
- Desigualdade explode: alívio fiscal no topo, cortes de serviços na base.
- Investimento some: como aposentadorias estão blindadas, a tesoura cai sobre discricionários — justamente onde mora o futuro.
Stiglitz foi direto: “Se você reduzir gastos com educação, infraestrutura ou tecnologia… a aspiração do Brasil é diminuir a distância em relação aos países desenvolvidos. Cortes desse tipo ampliarão a distância.”
O diagnóstico que ninguém quer ouvir
Para o Nobel, o verdadeiro nó da economia brasileira não é o superávit primário — que já existe —, mas o déficit nominal inchado por juros estratosféricos. Taxas reais descoladas da inflação beneficiam o mercado financeiro, mas asfixiam a atividade real.
Uma economia competitiva, diz ele, exige juros baixos, salários robustos e sistema financeiro que financie produção, não especulação. O receituário de austeridade regressiva caminham na direção oposta.
Geopolítica: o risco de escolher o lado errado
Stiglitz também abordou a interferência externa. Classificou como “ilegal” e “própria de ditadores” a ameaça de tarifas adicionais dos EUA condicionadas a processos internos brasileiros. Lembrou que a China já é parceiro comercial maior e menos intervencionista.
“Apostar em Trump seria um erro muito grave”, sentenciou. Metade das exportações brasileiras aos EUA — carne, café, laranja — sequer foi taxada, por necessidade americana.
O que observar daqui para frente
Se o segundo turno confirmar a tendência, três variáveis merecem monitoramento diário: a curva de juros longa (termômetro da credibilidade fiscal), o fluxo de investimento direto (que reage ao crescimento real, não a promessas) e os indicadores sociais de curto prazo — desemprego, renda real, acesso a serviços. O Nobel deixou o aviso: o entusiasmo de hoje pode ser a ressaca de amanhã.
