Economia

Arrecadação recorde de R$ 239 bi: o segredo por trás do rombo de 2026

Gráfico mostra arrecadação federal recorde de R$ 239 bi em setembro 2024
Arrecadação federal bate recorde histórico, mas projeção para 2026 aponta rombo nas contas

A Receita Federal confirmou: a arrecadação federal atingiu R$ 239,4 bilhões em setembro, o maior valor para o mês em 32 anos de série histórica. O crescimento real de 5,6% sobre 2023 impressiona, mas esconde um detalhe crucial nas entrelinhas do fiscal.

Nos nove primeiros do ano, o caixa somou R$ 2,38 trilhões (valores corrigidos), alta de 7% acima da inflação. Recorde sobre recorde. Porém, a festa do Tesouro contrasta com a projeção de contas no vermelho para daqui a dois anos.

O motor por trás da enxurrada de receitas

Não foi apenas a economia aquecida que encheu os cofres. Uma combinação de medidas tributárias recentes e fatores externos turbinou o resultado. O governo colhe agora o que plantou em decisões polêmicas dos últimos dois anos.

Do lado externo, a geopolítica deu uma força: a alta do petróleo — puxada por tensões entre EUA e Irã — elevou royalties e participações especiais. Uma taxação extra sobre exportações do óleo completou o pacote.

A lista de aumentos que ninguém esquece

Para o empresário que paga a conta, a origem do dinheiro é clara. Relembre os principais vetores de alta de carga tributária no período:

  • Tributação de fundos exclusivos e offshores (alta renda);
  • Mudanças nas subvenções estaduais (incentivos de ICMS);
  • Reoneração gradual da folha de pagamentos;
  • Fim dos benefícios do Perse (setor de eventos);
  • Alta de impostos sobre combustíveis (2023) e IOF sobre crédito/câmbio;
  • Majoração da tributação sobre Juros sobre Capital Próprio (JCP).

O paradoxo de 2026: meta cumprida, contas no vermelho

Aqui reside o ponto que o investidor precisa monitorar. A meta fiscal para 2026 prevê superávit primário de 0,25% do PIB (cerca de R$ 34,3 bi), com banda de tolerância de 0,25 p.p. Na prática, saldo zero já conta como “meta cumprida”.

Mas o Arcabouço Fiscal permite excluir R$ 57,8 bilhões em despesas — sobretudo precatórios — do cálculo oficial. Feita a conta real, o rombo projetado salta para R$ 23,3 bilhões negativos.

Ou seja: mesmo com arrecadação histórica, a regra contábil mascara um déficit estrutural. Se os números se confirmarem, o terceiro mandato de Lula fechará quatro anos seguidos de contas públicas deficitárias.

O que observar daqui para frente

A sustentabilidade desse nível de arrecadação depende de duas variáveis voláteis: o preço do barril de petróleo no mercado internacional e a capacidade da economia de manter o ritmo sem esfriar sob juros altos.

Para o planejamento estratégico, o sinal é claro: a pressão por novas receitas não deve arrefecer. Fique atento a propostas de tributação sobre dividendos, mudanças no Simples Nacional ou novas alíquotas setoriais — o gap de 2026 já está posto na mesa.