A Argentina deve ter entrado em recessão técnica no terceiro trimestre de 2026, e o número de agosto explica o porquê. O índice que antecipa o PIB (EMAE) mal se moveu: alta de apenas 0,1% no mês, longe de compensar o tombo de 2,8% de julho. Na comparação anual, a atividade recuou 1,7%.
Para quem acompanha o vizinho do Mercosul, a pergunta não é se a recessão veio, mas quão fundo ela vai.
O cálculo que torna setembro decisivo
O analista Gonzalo Carrera, da consultoria Equilibra, fez a conta: para evitar dois trimestres seguidos de queda — a definição clássica de recessão técnica —, a economia precisaria crescer mais de 8,5% em setembro. Um número que, nas palavras dele, beira o improvável.
Mesmo um avanço modesto de 1,5% no mês fecharia o trimestre com retração de 2,3%. Como o segundo trimestre já havia encolhido 0,2%, o diagnóstico está praticamente selado.
Dez setores em queda: onde a dor é mais forte
Dos quinze segmentos que compõem o EMAE, dez registraram baixa em agosto. Três puxaram o indicador para baixo com força:
- Pesca: -15,7% na comparação anual
- Indústria manufatureira: -3,2% ao ano
- Comércio atacadista, varejista e reparos: -3,5% ao ano
Juntos, indústria e comércio subtraíram 0,9 ponto percentual da variação interanual do índice. Não é detalhe: são os motores do emprego formal e da arrecadação.
Os poucos pontos de luz
Cinco setores escaparam da queda. O destaque vai para exploração de minas e pedreiras (+11,1%), seguido por eletricidade, gás e água (+4,3%) e hotéis e restaurantes (+3,1%).
O setor de hospedagem e alimentação costuma reagir rápido a fluxos de turismo e câmbio — um termômetro de curto prazo, não de sustentação estrutural.
O que observar daqui para frente
O dado de setembro, quando sair, confirmará a extensão do recuo trimestral. Mas três variáveis merecem atenção contínua: a trajetória da inflação mensal, a capacidade do governo Milei de manter o superávit fiscal sem aprofundar a contração e a resposta do setor externo — exportações de commodities e ingresso de dólares financeiros.
Para o empresário ou investidor brasileiro, o sinal é claro: planejamento de câmbio, crédito e demanda na Argentina deve considerar cenário de recessão ativa por pelo menos mais um trimestre.
