O Bradesco fechou o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 7,1 bilhões, alta de 14,6% em um ano. O número bateu a previsão dos analistas, mas esconde uma dinâmica que todo investidor precisa entender: a receita com crédito encolheu, e o resultado só segurou porque o banco apertou o cinto das despesas.
A margem financeira com clientes caiu 3,5% em três meses. Em compensação, as despesas operacionais recuaram 0,7% no mesmo período. É a velha máxima de “fazer mais com menos” levada ao extremo em um cenário de juros altos e economia desacelerada.
A engenharia por trás do lucro
O CEO Marcelo Noronha foi direto: o apetite ao risco segue moderado. O banco priorizou linhas com garantia, clientes de alta renda e grandes empresas. O resultado prático aparece na composição da carteira, que atingiu R$ 1,15 trilhão:
- Pessoas jurídicas: estoque saltou 14% em 12 meses;
- Consignado privado: carteira dobrou no ano;
- Veículos (PF) e cartão alta renda: entre as que mais cresceram;
- Crédito pessoal: encolheu 2,5% no período.
Essa seleção rigorosa protege a qualidade dos ativos, mas limita a expansão da margem financeira — justamente a linha que caiu 2% na comparação anual.
O sinal de alerta na inadimplência
O índice de atrasos acima de 90 dias subiu para 4,6%, alta de 0,5 ponto percentual em um ano. A pressão não é uniforme. Olhe para os dois bolsões de risco:
- Pessoas físicas: 5,8% da carteira em atraso (maior nível);
- MPMEs: 4,9%, subindo de 4,4% em junho e 3,7% há um ano.
Metade da deterioração total veio do varejo. O balanço cita ainda efeito sazonal do Banco John Deere no agro, mas a tendência estrutural nas pequenas empresas preocupa: o endividamento alto trava a capacidade de pagamento.
Provisões caras e o reforço de caixa
Para cobrir esse risco, o banco provisionou R$ 10,6 bilhões no trimestre — salto de 24,3% ano a ano. A explicação oficial mistura reavaliação de safras antigas (crédito rural e PF) com o crescimento da carteira nova.
O ROAE recorrente ficou em 16,1%, ainda distante dos 20% do pré-pandemia. Para acelerar a volta ao patamar histórico, o Bradesco captou R$ 10 bilhões em follow-on. O caixa extra financia a transformação digital e a reestruturação física.
Menos agências, mais tecnologia
Desde setembro do ano passado, 318 agências bancárias fecharam as portas. Contando todos os postos de atendimento, foram 852 a menos, totalizando 3.892 unidades. A força de trabalho segue em 79 mil funcionários para atender 75 milhões de clientes.
O braço de seguros contribuiu com R$ 2,9 bilhões de lucro (+14,1% anual), funcionando como amortecedor da volatilidade do crédito.
O que observar daqui para frente
A equação atual depende de dois vetores: a manutenção do controle de custos — já no limite — e a estabilização da inadimplência nas MPMEs. Se a Selic não cair rápido, a originação travada continua freando a margem. O próximo balanço dirá se a capitalização extra consegue transformar eficiência em rentabilidade real ou apenas mascara a compressão de spread.
