O mercado de lavanderias de autoatendimento no Brasil cresceu tanto nos últimos cinco anos que o CEO da 5àsec, Fábio Roth, enxerga risco real de bolha. Mais de 50 novas marcas surgiram no período, e três delas já somam quase 700 unidades cada no ranking da ABF — setor onde, até pouco tempo, apenas a 5àsec figurava entre as 50 maiores franquias.
Roth compara o momento à febre das paletas mexicanas: expansão acelerada, entrada de jogadores sem preparo e, inevitavelmente, uma sacudida que deve eliminar os menos estruturados. A diferença é que o tamanho do prêmio justifica a corrida.
O abismo entre o Brasil e os mercados maduros
Nos Estados Unidos e na Europa, cerca de 40% da população usa serviços de lavanderia. No Brasil, o índice mal passa de 6%. São mais de 27 mil operações faturando acima de R$ 6 bilhões anuais, segundo estimativas do setor. O teto está longe.
Essa lacuna explica por que a própria 5àsec — rede francesa no país desde 1994 — entrou no jogo de autoatendimento com a LavPop, lançada em 2022. Hoje convivem 650 unidades do modelo tradicional e 150 de autoatendimento. A participação no faturamento ainda pende para o lado clássico (70%), mas a curva aponta inversão nos próximos anos.
Dois modelos, duas contas bem diferentes
- LavPop (autoatendimento): investimento inicial a partir de R$ 180 mil; payback médio de 24 meses.
- 5àsec tradicional: investimento até R$ 600 mil; retorno entre 36 e 40 meses.
A matemática favorece o modelo enxuto, mas Roth faz uma ressalva: “Não basta comprar máquinas. Quem sobrevive entrega assessoria de qualidade e acerta a localização.”
Onde está o próximo crescimento
A expansão da rede mirou três frentes simultâneas:
- Periferias de São Paulo e grandes centros verticalizados (Belo Horizonte, Porto Alegre) onde apartamentos não têm área de serviço.
- Cidades acima de 100 mil habitantes — antes, o corte era 500 mil. A loja de Sinop (MT), com 150 mil moradores, já figura entre as 10 maiores do país.
- Expansão internacional: Paraguai e Uruguai aprovados, com US$ 500 mil já investidos no Paraguai. Primeira unidade prevista para o início do próximo ano.
Em ano eleitoral, a meta de 150 novas unidades caiu para 90. Mesmo assim, o faturamento projetado salta de R$ 330 milhões (2025) para R$ 360 milhões (2026).
Reforma tributária e fim da jornada 6×1: variáveis de custo
Roth vê dois choques de custo no horizonte. A reforma tributária pode dobrar a alíquota efetiva do setor, empurrando investimentos para automação. O fim da escala 6×1 exigirá mais contratações ou redução de horários de atendimento — ou repasse de preço ao consumidor.
“Ou se elevam os preços ou o operador reduz a jornada diária. Não tem almoço grátis”, resume.
O consumidor brasileiro é mais exigente que o europeu
Curiosidade operacional: na França, a passadoria é padronizada, sem vinco marcado. No Brasil, o cliente cobra acabamento impecável. A gravata, antes item de maior volume, nem entre as 50 primeiras está mais. Camisas ainda lideram, mas caem ano a ano — reflexo direto da mudança no código de vestimenta pós-pandemia.
IA já roda na operação
Sistemas de visão computacional auxiliam a triagem de peças, identificando manchas e tecidos antes da lavagem. Roth resume a tese de longevidade do setor: “Só não tem futuro se o ser humano parar de usar roupa. O tipo de tecido muda, a forma de higienizar muda. Quem não se adapta, fica pelo caminho.”
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se a bolha estoura ou amadurece: taxa de mortalidade das novas marcas de autoatendimento nos próximos 18 meses, velocidade de adoção de automação fiscal nas redes médias e a capacidade das franqueadoras de entregar suporte real — não apenas máquinas — aos franqueados de cidades pequenas. O mercado existe. A execução é que separa os que ficam dos que somem.
