O Canal do Panamá encerrou o ano fiscal de 2026 com um marco histórico: 521 milhões de toneladas de carga cruzaram a via interoceânica, superando o recorde anterior de 518 milhões, registrado em 2022. O feito surpreende porque ocorreu em meio a uma seca severa que forçou cortes drásticos no tráfego de navios.
A receita total saltou 16%, atingindo US$ 6,6 bilhões (cerca de R$ 33,2 bilhões). Mas a explicação para esse paradoxo — mais carga com menos água — está a milhares de quilômetros de distância.
O efeito borboleta do Estreito de Ormuz
Tudo mudou em fevereiro, quando o conflito no Oriente Médio fechou o Estreito de Ormuz. Antes da crise, 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) mundial passavam por ali. Com a rota bloqueada, petroleiros e gaseiros correram para a alternativa mais viável: o atalho panamenho.
Para absorver essa demanda repentina por energéticos, a Administradora do Canal (ACP) tomou uma decisão ousada: elevou a cota diária de trânsitos de 36 para 41 navios “por um período”. Essa janela extra permitiu escoar a fila de embarcações que fugiam do risco no Mar Vermelho.
A corrida contra o relógio do El Niño
O fôlego extra chegou na hora exata. O fenômeno El Niño já secava os lagos artificiais Gatún e Alajuela, fontes de água doce que movem as eclusas. Sem chuva, a ACP foi forçada a reduzir progressivamente o calado autorizado e o número de passagens diárias nos meses seguintes.
Segundo a administradora Ilya Espino de Marotta, o “boom” do primeiro semestre amorteceu o baque financeiro e operacional das restrições hídricas posteriores. Em resumo: o canal vendeu a capacidade que tinha *antes* de a seca apertar o cerco.
Os números que explicam o ano atípico
- Carga total: 521 milhões de toneladas (recorde histórico).
- Navios: Quase 14 mil trânsitos no ano fiscal (out/2025 – set/2026).
- Receita: US$ 6,6 bilhões (+16% vs. ano anterior).
- Pico operacional: 41 trânsitos/dia (vs. 36 padrão) durante a crise de Ormuz.
- Rota principal: Ásia (China, Japão, Coreia) ↔ Costa Leste dos EUA.
O que observar daqui para frente
O cenário deixa duas incógnitas estratégicas para 2027. A primeira é climática: a recuperação dos níveis dos lagos dependerá da intensidade da próxima estação chuvosa e da possível transição para La Niña. A segunda é geopolítica: a reabertura de Ormuz devolveria o fluxo de energéticos para o atalho do Suez, tirando do Panamá a “válvula de escape” que sustentou o recorde.
Para o empresário que move carga entre a Ásia e a Costa Leste americana, o recado é claro: a confiabilidade do canal dependerá menos de obras de engenharia e mais da gestão de água doce em um clima instável — e da paz no Oriente Médio.
