O governador Eduardo Leite e o eleito Luciano Zucco cruzaram os pavilhões da Mercopar lado a lado, em Caxias do Sul, e a imagem diz mais que mil discursos. O voo de helicóptero de volta a Porto Alegre selou um gesto raro: inimigos de palanque agindo como parceiros de gestão.
Claudio Bier, presidente da FIERGS, não economizou elogios. Disse diante da nata industrial gaúcha que é isso que se espera de “grandes gestores”. A plateia — empresários, prefeitos, deputados — ouviu em silêncio.
O que muda na prática para quem empreende
A transição começou antes da posse. Equipes técnicas trocam dados sobre contas públicas, obras paradas e contratos em andamento. Não há “caixa-preta”: o governo atual abriu planilhas de fluxo de caixa e cronogramas de pagamentos a fornecedores.
Para o setor produtivo, o sinal é claro: não haverá paralisia nos primeiros 100 dias. Licitações em andamento seguem. Convênios com municípios mantêm cronograma. A Secretaria da Fazenda já alinhou regras de transição orçamentária com a equipe de Zucco.
O recado que Leite deu a Zucco no corredor
Durante a caminhada pelos estandes, Leite puxou o eleito para uma conversa reservada. Testemunhas próximas relatam que o tom foi de alerta, não de conselho genérico. Três pontos teriam sido enfatizados:
- Previdência estadual: o déficit atuarial exige reforma complementar no primeiro semestre.
- Dívida com a União: o novo regime de recuperação fiscal vence em 2027; negociação começa agora.
- Piso do magistério: impacto de R$ 1,2 bi no orçamento 2027 se não houver acordo nacional.
Zucco ouviu, anotou e confirmou que as pastas da Fazenda e Planejamento terão perfil técnico, não político.
Por que o PL e o PSD fecharam esse acordo
Não foi apenas civilidade. Pesquisas internas mostram que 68% do eleitorado gaúcho reprova briga pós-eleição. O empresariado — do agronegócio à indústria metalmecânica — pressionou nos bastidores por previsibilidade.
Leite garante legado e viabilidade para 2026. Zucco assume com governabilidade imediata e tempo para montar equipe sem sabotagem. Ambos ganham; o Estado ganha tempo.
O que observar daqui para frente
O primeiro teste real virá em novembro: a votação do orçamento 2027 na Assembleia. Leite articula base para aprovar texto que já contempla prioridades do futuro governo. Se passar sem emendas radicais, a transição vira case.
Outro termômetro: anúncio dos secretários da Fazenda, Saúde e Educação até 15 de dezembro. Nomes técnicos, com passagem por gestão pública ou privada, confirmarão o discurso. Indicações partidárias clássicas, não.
Enquanto isso, o helicóptero que levou Zucco de volta a Porto Alegre simboliza mais que carona. É a máquina pública funcionando para quem vai comandá-la — não contra quem a comanda hoje.
