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O erro fatal do Reino Unido: Por que voltar aos anos 70 não funciona

Políticos britânicos olhando para trás com relógio marcando anos 70, simbolizando nostalgia política perigosa
A nostalgia pelos anos 70 domina o discurso político britânico enquanto o eleitorado se fragmenta.

As duas maiores forças políticas britânicas somam apenas 48,6% das intenções de voto, segundo pesquisas recentes. Enquanto o eleitorado fragmenta, os discursos das conferências partidárias revelaram um consenso perigoso: a aposta no passado como roteiro para o futuro.

De um lado, Kemi Badenoch evoca Disraeli e padrões morais; do outro, Andy Burnham culpa Thatcher por todos os males atuais. Mas a nostalgia esconde uma armadilha que investidores e empresários não podem ignorar.

O vácuo de poder e a aposta no “caráter”

A baixa adesão aos dois grandes partidos — 27,9% para o Trabalhista e 20,7% para o Conservador — sinaliza uma crise de representatividade. Nesse vácuo, Badenoch rompeu com a tradição de citar Margaret Thatcher.

Ela preferiu invocar Benjamin Disraeli, arquiteto do conservadorismo moderno, para desenhar uma linha vermelha contra a aliança com o Reform UK. A líder foi direta: “Caráter, conduta e padrões importam”, recusando um governo que debata a identidade de seus filhos mestiços.

Foi um movimento de repositioning moral. Ainda que sua proposta de isentar a residência familiar do imposto sobre herança risque o dinamismo imobiliário, ela ofereceu uma alternativa clara à xenofobia da extrema-direita.

A narrativa de Burnham: A culpa é da desregulamentação

Andy Burnham, prefeito de Greater Manchester, adotou tom oposto. Seu discurso listou os “pecados” das últimas décadas: desindustrialização, desregulamentação, privatização, austeridade e Brexit.

Para ele, setores vitais — moradia, água, energia, transporte — foram “desmembrados e vendidos”. A retórica apela ao eleitorado trabalhista tradicional, mas ignora por que o Reino Unido abraçou Thatcher em 1979.

Os números que o discurso ignora: A realidade dos anos 70

Antes de Thatcher, a economia britânica não era um paraíso perdido. Os dados mostram um país paralisado:

  • Inflação: Pico de 27% ao ano em agosto de 1975.
  • Greves: Dias perdidos atingiram níveis recordes no início dos anos 70, 1979-80 e meados dos anos 80.
  • Indústria: British Leyland, símbolo do setor automotivo, foi estatizada em 1975 após colapso.
  • Serviços públicos: Carvão, aço, ferrovias e telefonia estatal sofriam com politização do investimento e ineficiência crônica.

Thatcher não criou esses problemas; sua eleição foi sintoma do esgotamento daquele modelo. Voltar atrás não é uma opção viável.

Privatização e desindustrialização: O que os dados provam

A experiência mostrou que serviços privatizados em mercados competitivos melhoraram drasticamente. Já a perda de empregos na indústria não foi exclusividade britânica.

O choque foi maior no Reino Unido devido a fragilidades estruturais pré-existentes e erros macroeconômicos dos anos 80. Na era da inteligência artificial, a tendência de queda no emprego fabril é irreversível. Prometer “reindustrialização” é prometer o impossível.

O mito da “desregulamentação” e o gargalo real

Burnham critica a desregulamentação, mas o diagnóstico inverte a realidade. O Reino Unido sofre hoje de excesso de regulação, especialmente no planejamento territorial.

Se o país fosse verdadeiramente desregulado, já teria:

  • Rede de trens de alta velocidade;
  • Nova geração de usinas nucleares;
  • Parques eólicos offshore em escala;
  • Expansão de aeroportos e moradias.

Construir qualquer coisa virou um “pesadelo burocrático”, como aponta o movimento Britain Remade. A interação entre regulação pesada e incentivos de bem-estar mal desenhados trava o mercado de trabalho — justamente o ponto que Burnham admite ao citar os jovens nem-nem (nem estudam, nem trabalham).

Onde a crítica acerta: Água e o colapso habitacional

Nem tudo está errado na visão do prefeito. A privatização da água, monopólio natural, gerou resultados questionáveis. O ponto central, porém, é a habitação.

Entre 1960 e 1980, o Reino Unido construiu 7 milhões de casas. De 2005 a 2025, o número não chega a 4 milhões. A queda na construção por autoridades locais, somada a restrições de zoneamento, explodiu os preços em Londres e no Sudeste.

Devolver poder às prefeituras para construir pode ser parte da solução, mas não resolve sozinho.

O que observar daqui para frente: Orçamento e estratégia real

Lamentar o thatcherismo não é política econômica. Nem “devolução de poderes” ou “reindustrialização” funcionam como mantras isolados. A questão central permanece: qual a estratégia coerente de crescimento do governo Starmer — e de um eventual governo Burnham?

O Orçamento da próxima semana será o primeiro teste real. Para o investidor, o sinal a monitorar não é a retórica histórica, mas a disposição de enfrentar o planejamento urbano, a capacidade fiscal para infraestrutura energética e a reforma do mercado de trabalho. O passado não volta; o capital flui para onde há segurança jurídica e agilidade regulatória.