Uma agência de turismo em Santa Rita do Sapucaí fechou as portas e deixou de responder clientes após cancelar viagens às vésperas do embarque — sem devolver um centavo. Quatro grupos diferentes relataram o mesmo padrão: pagamentos à vista, promessas de vouchers que nunca chegaram e uma responsável que sumiu. O que era para ser comemoração virou boletim de ocorrência por estelionato.
Advogado das vítimas aponta dolo: a empresa teria recebido os valores sem fazer nenhuma reserva real. A agência admite “intercorrências operacionais” e abriu auditoria interna de 90 dias. Enquanto isso, consumidores seguem sem previsão de reembolso.
O padrão que se repete em quatro grupos
Os relatos convergem em detalhes que escapam de um simples imprevisto comercial. Marcella de Oliveira, diretora de escola, pagou à vista em maio por uma viagem a Porto de Galinhas para comemorar os 10 anos do filho. O embarque seria na sexta-feira. Dias antes, soube que outros três grupos já haviam sido lesionados.
Andrea Maria Prado Carneiro, assistente administrativa, desembolsou cerca de R$ 5 mil por um pacote com voo e hospedagem para o Nordeste. No dia do embarque, horas antes do voo, não havia voucher. Após pressão, a agência alegou overbooking; depois, enviou nota cancelando a viagem sem data para explicações.
A aposentada Neuza Pivoto pagou R$ 2.777 e não recebeu “nem um centavo”. João Evangelista, morador de Cachoeira de Minas, teve a viagem para Balneário Camboriú cancelada dois dias antes da partida. Cleusa Pivoto, também aposentada, acumula prejuízo de R$ 10 mil entre pacotes para Maceió e Portugal — sem contar euros comprados antecipadamente.
- Valores lesionados: de R$ 2.777 a R$ 10.000 por cliente
- Destinos afetados: Porto de Galinhas, Nordeste (roteiros diversos), Balneário Camboriú, Maceió, Portugal
- Forma de pagamento: predominantemente à vista
- Canal de comunicação: aplicativo de mensagens — desativado após os cancelamentos
Ausência de comprovantes: o sinal ignorado
O ponto comum entre todas as vítimas é a falta de vouchers ou localizadores de reserva. Passagens aéreas e hospedagens nunca tiveram emissão comprovada. Ainda assim, os consumidores mantiveram a confiança até o colapso final — quando a agência fechou as portas fisicamente e cortou contato digital.
Para o advogado João Evangelista Pereira, a configuração vai além de desavença comercial. “Ela angariou o dinheiro, não fez reserva nenhuma em hotel nenhum e não comprou as passagens aéreas. No grupo, informava que tinha feito, quando, na verdade, era tudo mentira”, afirma. A tese é de dolo — intenção deliberada de lesar —, o que move os boletins de ocorrência por estelionato.
Resposta da empresa: auditoria de 90 dias
Em nota, a Agência de Turismo Culturale reconheceu “intercorrências operacionais” e informou ter iniciado auditoria administrativa própria com prazo de 90 dias para apurar os dados. Após a conclusão, promete procurar os consumidores para “medidas cabíveis, de acordo com cada caso”. Não há menção a reembolso imediato nem a garantias de ressarcimento integral.
O prazo de três meses alonga a incerteza para quem já arcou com custos extras — como a compra de moeda estrangeira — e viu planos pessoais desfeitos. A ausência de um canal ativo de atendimento agrava a sensação de abandono.
O que observar daqui para frente
Enquanto a investigação policial e a auditoria interna correm em paralelo, três movimentos merecem atenção: a eventual decretação de busca e apreensão de documentos contábeis da agência; a possibilidade de bloqueio judicial de bens da responsável para garantir ressarcimento; e a adesão de novas vítimas, o que pode ampliar o inquérito. Para quem contratou serviços semelhantes na região, a recomendação prática é exigir comprovantes de emissão (localizadores aéreos, vouchers de hotel com confirmação direta do estabelecimento) antes de qualquer pagamento final — e evitar transferências diretas para contas de pessoa física sem lastro contratual claro.
