Uma paciente filmou água preta saindo da torneira do Hospital Municipal Raul Sertã, em Nova Friburgo, e expôs uma cadeia de falhas que vai muito além da tubulação. O vídeo viralizou, mas a pergunta que fica é: como uma unidade de referência na Região Serrana chegou a esse ponto?
O episódio ocorreu na terça-feira (20), após a retomada do abastecimento que havia sido interrompido. A água escura, porém, foi apenas o gatilho para denúncias que já se acumulavam nos corredores.
O que os pacientes encontraram ao dar entrada
Acompanhantes relatam ter levado de casa itens que deveriam ser obrigação da unidade: papel higiênico, fraldas, lençóis, cobertores e até ventiladores. Uma idosa de 75 anos, internada após infarto, precisou que a família comprasse medicamentos que o hospital não tinha em estoque.
Funcionários ouvidos sob anonimato confirmam o desabastecimento crônico. Faltam agulhas para diluição de antibióticos, seringas e os próprios antibióticos. Médicos chegam a ficar sem saber como proceder diante da ausência de insumos básicos.
A conta que não fecha na gestão de insumos
O problema não é pontual. A Secretaria Municipal de Saúde admitiu atraso na entrega de papel higiênico — regularizado só após a repercussão. Sobre a água, a pasta atribuiu a coloração a ar na tubulação e problema na caixa-d’água, resolvido no sábado anterior.
Já as cadeiras com estofados rasgados e apoios de braço envoltos em sacolas plásticas? A direção afirma que uma vistoria na terça não encontrou equipamentos nessas condições, exceto no setor de medicação, onde as poltronas já teriam sido substituídas.
- Abastecimento de água: interrompido, retomado com coloração escura; causa oficial: ar na rede e caixa-d’água
- Insumos críticos em falta: agulhas de diluição, seringas, antibióticos
- Itens de higiene: papel higiênico e fraldas trazidos por familiares
- Mobiliário: denúncias de rasgados; direção nega exceto no setor de medicação (já trocado)
O impacto direto na operação assistencial
Quando falta agulha para diluir antibiótico, o tratamento de infecções graves trava. Quando o paciente precisa comprar o próprio remédio, a gratuidade do SUS vira ficção. E quando a água chega escura à torneira do leito, a segurança do cuidado — e a confiança no sistema — se evaporam juntos.
Gestores de saúde sabem: falhas assim não nascem do nada. São sintomas de cadeias de suprimento quebradas, contratos vencidos sem renovação, fiscalização ausente e orçamento executado sem margem para imprevistos.
O que observar daqui para frente
A secretaria prometeu normalização, mas não apresentou cronograma de recomposição dos estoques críticos nem plano de manutenção preventiva da rede hidráulica e do mobiliário. O próximo passo lógico seria a publicação de relatório de auditoria interna — algo que, até o momento, não foi anunciado.
Para quem acompanha a gestão pública de saúde na região, o sinal de alerta está dado: a estrutura de retaguarda do Raul Sertã precisa de mais que notas de esclarecimento. Precisa de rastreabilidade de compras, indicadores de ruptura de estoque em tempo real e contrato de manutenção predial com SLAs claros. Sem isso, o próximo vídeo pode mostrar algo pior que água escura.
