Quase 67% dos médicos americanos recorrem a uma única ferramenta de inteligência artificial para decidir diagnósticos e tratamentos. O fenômeno catapultou a OpenEvidence, startup fundada em 2022, a uma avaliação de US$ 15 bilhões — e levanta dúvidas urgentes sobre o futuro da prática clínica.
Como um chatbot virou “viral” entre 1 milhão de profissionais
A plataforma processou mais de 42 milhões de consultas em apenas um mês. Diferente de concorrentes, a OpenEvidence restringe suas fontes a periódicos revisados por pares — New England Journal of Medicine, JAMA e similares. A gratuidade sustentada por anúncios e a integração direta a prontuários eletrônicos (EHR) removeram barreiras de adoção.
“Somos o primeiro aplicativo de internet voltado ao consumidor na saúde a se tornar viral”, afirma Daniel Nadler, fundador. O crescimento ocorreu quase inteiramente por recomendação entre pares, sem força de vendas tradicional.
O dinheiro por trás da máquina: US$ 1 bi em 18 meses
Andreessen Horowitz, Blackstone, Thrive Capital e Sequoia lideraram rodadas que injetaram quase US$ 1 bilhão na empresa. Em setembro, um aporte de US$ 250 milhões consolidou o valuation de US$ 15 bilhões. A projeção interna aponta receita publicitária entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões até o fim de 2026.
- Compromissos de anúncios fechados até dez/2025: US$ 100 milhões
- Meta de receita 2026: US$ 400–500 milhões
- Investidores principais: a16z, Blackstone, Thrive, Sequoia, Mayo Clinic
Integração hospitalar: de “ferramenta paralela” a padrão oficial
Mount Sinai, Memorial Sloan Kettering e NYU Langone adotaram a OpenEvidence nos fluxos de atendimento. Paul Testa, diretor de informática da NYU Langone, resume o movimento: “Os médicos já usavam por conta própria. Integrar foi garantir uso seguro e máximo proveito”.
A expansão para documentação automatizada — anotações em tempo real durante consultas — é o próximo passo natural. Mas o modelo baseado em publicidade gera ceticismo: até que ponto anunciantes influenciam respostas clínicas?
O muro regulatório e a saída da Europa
A OpenEvidence retirou-se do Reino Unido e da União Europeia no início do ano, citando a AI Act europeia. Dois mercados estratégicos fechados para evitar compliance complexo — uma decisão que limita o endereçável, mas preserva foco no mercado americano, onde a adoção já é massiva.
Estudos divergem: precisão real ou “alucinação clínica”?
Um estudo da Mayo Clinic (investidora) validou recomendações em cinco casos. Já artigo na Nature (junho) mostrou desempenho inferior a Gemini (Google) e GPT (OpenAI) em benchmarks clínicos. Eric Oermann, neurocirurgião da NYU Langone, alerta: “Faltam pesquisas independentes e guias de implementação segura”.
Outro risco: residentes podem desenvolver dependência antes de consolidar raciocínio clínico próprio. A ferramenta acelera, mas não substitui julgamento.
O próximo tabuleiro: descoberta de fármacos
Nadler revela ensaios clínicos iminentes em câncer e doenças raras, em parceria com pesquisadores. O objetivo declarado: usar mineração de literatura para gerar novas hipóteses de drogas. “O valor econômico será ordens de grandeza maior que qualquer receita hospitalar ou publicitária”, diz.
Alexander Tarashansky (ex-Claude Science, Anthropic) juntou-se à equipe para liderar o braço clínico. A Anthropic, aliás, firmou parceria para levar a OpenEvidence a 100 países de baixa e média renda — enquanto compete no topo com OpenAI e seu ChatGPT for Healthcare.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a OpenEvidence sustenta a liderança: (1) publicação de auditorias independentes contínuas de acurácia; (2) transparência sobre conflitos do modelo ad-supported; (3) capacidade de converter a base de usuários em pipeline de descoberta de fármacos sem perder a confiança clínica. O mercado de IA na saúde ainda está na primeira entrada — mas a janela para definir padrões de confiança está se fechando rápido.
