O IBGE retirou silenciosamente a referência à estimativa do comércio de drogas ilícitas da nota metodológica que prepara a nova série das Contas Nacionais. A menção constava na versão de outubro de 2025 e desapareceu no documento atualizado em setembro de 2026. O instituto não explicou o motivo nem confirmou se a conta entrará no PIB final.
A mudança pegou analistas de surpresa e reacendeu o debate sobre como atividades ilegais devem — ou não — aparecer nas estatísticas oficiais. A previsão de divulgação da nova série permanece para 2028.
O que diziam as duas versões do documento
A nota original listava, entre as alterações previstas, a “estimativa da comercialização de drogas” como parte da revisão metodológica. A versão mais recente mantém a estrutura geral, mas suprime especificamente esse item. O IBGE informou que notas metodológicas são atualizadas rotineiramente durante o processo de revisão, podendo incorporar comentários externos, ajustes de cronograma ou mudanças nas bases de dados.
Questionado sobre a exclusão pontual, o órgão não detalhou se a estimativa foi descartada, postergada ou apenas retirada do texto público.
Por que atividades ilegais entram no PIB
A regra não é invenção brasileira. O System of National Accounts (SNA), manual da ONU, e o guia sobre compilação de estatísticas de atividades econômicas ilegais estabelecem: quando há transação voluntária entre comprador e vendedor, a operação pode entrar nas contas nacionais — independentemente da legalidade do bem ou serviço.
O objetivo é evitar distorções. Exemplo clássico: se uma família gasta dinheiro na compra de substância proibida e esse gasto não é registrado, as contas mostram que o recurso “permaneceu” na poupança familiar. Na prática, ele saiu de circulação. O resultado é uma superestimativa da poupança e inconsistências entre as contas setoriais.
Três atividades no radar internacional
Os manuais citam três frentes principais:
- Comércio de drogas ilícitas
- Prostituição
- Contrabando
O IBGE confirmou que incluirá a comercialização de drogas, mas não esclareceu se as outras duas também farão parte da nova série.
Como se mede um mercado invisível
A metodologia não parte de apreensões policiais — essas capturam apenas fração do fluxo e viés de fiscalização. A recomendação internacional é estimar pelo lado da demanda, combinando três variáveis:
- Número de usuários
- Consumo médio por usuário
- Preço de venda no varejo
O produto desses fatores resulta no gasto total dos consumidores. A etapa seguinte estima quanto desse consumo é abastecido por produção nacional e quanto vem de importação ilegal. Por fim, deduzem-se os custos intermediários (insumos, logística, corrupção) para chegar ao Valor Adicionado Bruto (VAB) da atividade — o que efetivamente acresce à economia.
Cronograma e próximos passos
Os estudos começaram em 2019. Uma primeira estimativa-teste foi realizada em 2021. Desde então, testes metodológicos continuam. A nova série das Contas Nacionais, com base em 2021, tem previsão de divulgação em 2028.
Até lá, o mercado financeiro e pesquisadores acompanharão se a menção reaparece em documentos técnicos ou se a exclusão sinaliza mudança de rumo. O que observar: notas técnicas intermediárias, seminários do IBGE e eventuais consultas públicas sobre a metodologia final.
