Um governador eleito com um celular na mão e zero projetos de infraestrutura está desmontando a máquina que mantém o estado funcionando. A conta chega rápido — e quem paga não é ele.
Juninho da Van construiu a carreira gravando vídeos de um minuto diante de buracos, enchentes e praças de pedágio. Dois mandatos de deputado, nenhuma lei aprovada. O confronto virou produto; a solução, opcional.
Como se elege quem não promete nada
A campanha não apresentou um quilômetro de esgoto, uma linha de ônibus ou uma rodovia duplicada. Nem um cemitério, como o clássico Odorico Paraguaçu. O plano de governo foi substituído por exposição algorítmica.
O resultado: vitória nas urnas sem a obrigação de entregar obras. O mandato começa com a promessa implícita de que o enfrentamento permanente dispensa a gestão.
O primeiro ato: cancelar o pedágio por decreto
Na semana inicial, suspendeu a cobrança na principal rodovia concedida do estado. O roteiro é conhecido: governadores anteriores tentaram o mesmo. Um reduziu tarifas por decreto e o Judiciário restabeleceu. Outro mandou derrubar cabines com retroescavadeiras — a cidade pagou a indenização. Um terceiro deixou concessões vencerem sem substituição; as estradas regrediram em poucos anos.
Técnicos da agência reguladora explicaram: o contrato prevê reequilíbrio e indenização. A duplicação em andamento paralisa. A tarifa seguinte sobe para cobrir o rombo. O próximo investidor embute no preço o risco de ter o governador do outro lado da mesa.
Juninho ouviu, classificou como “conversa de quem nunca enfrentou o sistema” e gravou vídeo diante das cancelas abertas.
O choque com a regulação independente
Meses depois, a agência aprovou o reajuste anual previsto em contrato. Seu presidente ainda acreditava na autonomia técnica — raridade entre as mais de 90 agências reguladoras do país.
O governador determinou que o reajuste não seria aplicado. Amparou-se na procuradoria estadual, cuja filial dentro da agência já havia opinado que, em divergências, prevalecia a vontade do Executivo.
Estendeu o congelamento à estatal de energia e à mobilidade urbana. A história ensina: em 2012, medida provisória baixou a conta de luz por decreto. Três anos depois, a conta voltou com juros. O contribuinte cobriu a diferença.
Quando o setor produtivo para de aparecer
Disse que não cederia a pressões. Cumpriu: nenhuma nova concessão, nenhuma obra, nenhuma expansão de rede saiu do papel.
O passo seguinte foi anunciar a intenção de parar de pagar a dívida estadual. O estado funciona rolando o passivo mensalmente. No dia em que parar, não haverá recurso nem para a folha de pagamento.
Veio então a suspensão do pagamento de precatórios. A consequência é imediata: quem contrata com o estado passa a cobrar prêmio de risco. Quem precisa investir antes de receber — a base de qualquer concessão — simplesmente não comparece aos leilões.
O leilão de saneamento programado para o ano seguinte terminou sem propostas. A resposta foi novo vídeo culpando o mercado.
O método por trás da aparência
Críticos focam no comportamento: talher mal segurado, camisa suja durante refeições. Não é desconhecimento — é método. A camisa suja rende mais votos que o terno alinhado.
O preconceito erra o alvo. O problema não é a etiqueta à mesa, é a gestão do Orçamento. Cada gesto performático tem contrapartida concreta em obras paradas, contratos rompidos e investidores afastados.
O retrato que se repete
Neste ponto, o leitor já associou Juninho a governadores, prefeitos ou presidentes reais. Não há um só. São vários. Os vídeos continuam no ar. A rodovia segue em pista simples. A rede de água não chega ao bairro. O investidor foi para outro estado.
O “sistema” que ele diz enfrentar continua intacto. Quem não resistiu foi a infraestrutura.
O que observar daqui para frente
- Judicialização: contratos rompidos unilateralmente geram ações que travam recursos por anos.
- Prêmio de risco: novos leilões devem atrair menos concorrentes e lances mais altos, encarecendo o serviço ao usuário final.
- Serviços essenciais: energia, saneamento e mobilidade dependem de previsibilidade contratual; o congelamento artificial posterga colapso tarifário futuro.
- Folha e fornecedores: a interrupção do serviço da dívida costuma anteceder atrasos em pagamentos de pessoal e credores.
A equação é simples: popularidade imediata nas redes sociais cobra juros altíssimos na infraestrutura que sustenta a atividade econômica. A fatura virá — e não será paga com visualizações.
