Economia

O segredo que ninguém conta: como um celular elegeu o inimigo da infraestrutura…

Governador em tela de smartphone contrasta com obra de infraestrutura paralisada e placas de leilão deserto
O poder digital que ignora a engenharia real: obras paradas e leilões vazios marcam a gestão.

Um governador eleito apenas com vídeos de um minuto nas redes sociais decidiu governar ignorando contratos, agências reguladoras e a matemática da dívida pública. O resultado? Leilões desertos, obras paralisadas e um prêmio de risco que o setor produtivo já embute em cada proposta. A pergunta que fica: quanto tempo a infraestrutura aguenta um gestor que troca gestão por confronto?

Não houve promessa de esgoto, rodovia duplicada ou linha de ônibus. A campanha inteira coube na tela de um smartphone. Dois mandatos de deputado, nenhuma lei aprovada — apenas a exposição diária diante de buracos, enchentes e cancelas de pedágio. O eleitorado comprou o enfrentamento; o sistema institucional herdou a conta.

O primeiro ato: cancelar contratos em nome do “povo”

Na primeira semana, o decreto que suspendeu a cobrança de pedágio na principal rodovia concedida do estado virou vídeo viral. A agência reguladora avisou: o contrato prevê reequilíbrio econômico-financeiro e indenização. A duplicação em andamento pararia; a tarifa seguinte subiria para cobrir o rombo; o próximo investidor cobraria, no preço da outorga, o risco de ter o governador do outro lado da mesa. A resposta foi outro vídeo, gravado diante das cancelas levantadas.

Dias depois, a agência — cujo presidente ainda cultuava a própria independência, raridade entre as mais de 90 existentes no país — aprovou o reajuste anual. A procuradoria estadual, com filial instalada dentro do órgão, opinou que a vontade do governador prevalecia. Tarifas da estatal de energia e da mobilidade urbana também foram congeladas por ato unilateral.

O que a história ensina sobre congelar tarifas por decreto

O script não é inédito. Em 2012, uma medida provisória reduziu a conta de luz por canetada. Três anos depois, a fatura voltou com juros e correção, paga pelo contribuinte. Um prefeito mandou derrubar cabines de pedágio urbano com retroescavadeiras; o município arcou com a indenização. Outro estado deixou concessões vencerem sem substituição e viu as rodovias regredirem em poucos anos. O atual ocupante do palácio não leu nenhum desses capítulos.

  • Contrato de concessão: cláusulas de reequilíbrio ignoradas.
  • Agência reguladora: independência neutralizada por parecer interno.
  • Tarifas de energia e transporte: congeladas sem fonte de custeio.
  • Novos leilões: zero projetos lançados desde a posse.

Quando o Estado para de pagar: o efeito dominó nos leilões

A escalada foi rápida. A promessa de “resolver a dívida” virou ameaça de calote: o governador anunciou que deixaria de honrar os vencimentos mensais. Esqueceu-se — ou fingiu esquecer — que o Estado rola a dívida todo mês; no dia em que parar, nem a folha de pagamento sai. Em seguida, veio a suspensão dos precatórios.

O mercado reagiu na hora. Quem contrata com o poder público passou a exigir prêmio de risco pela chance de não receber. Quem precisa investir antes de receber — a essência de qualquer concessão — simplesmente não compareceu. O leilão de saneamento programado para o ano seguinte terminou sem uma única proposta. A culpa, no vídeo seguinte, foi atribuída ao “mercado”.

O método por trás da bagunça: por que a camisa suja rende votos

Críticos apontam traços pessoais: jeito desleixado à mesa, linguagem informal. Não é incompetência; é estratégia. A “camisa suja” autentica o personagem de outsider e rende mais engajamento do que o terno alinhado de um gestor técnico. O preconceito erra o alvo: o problema não é a etiqueta, é a execução orçamentária. Aliados de carreira, alguns investigados por repasses do orçamento secreto a obras inexistentes — pontes, quadras, postos de saúde cujos recursos foram empenhados e sumiram —, seguem intocáveis. A câmera apenas escolhe para onde não apontar.

O que observar daqui para frente: riscos no radar

O cenário atual desenha três frentes de monitoramento obrigatório para quem tem capital exposto ou planeja entrar:

  • Judicialização dos contratos: ações de reequilíbrio e indenização devem inundar os tribunais, travando ativos por anos.
  • Curva de juros local: o prêmio de risco estadual pressiona debêntures incentivadas e funding de infraestrutura.
  • Contágio federativo: outros entes podem replicar o roteiro se a punição eleitoral não vier.

A infraestrutura, ao contrário do “sistema” que o governador jura combater, não tem como se defender sozinha. Ela apodrece em pista simples, na rede de água que não chega, no investidor que foi embora. O próximo ciclo de concessões — se houver — sairá mais caro, mais lento e com cláusulas de proteção que, no fim, o usuário pagará. Quem lê até aqui já sabe: o vídeo é curto, a conta é longa.