Economia

Trem de 1.400 km no Nordeste: promessa bilionária ignora estudos e viabilidade real

Mapa do Nordeste com traçado proposto do Trem do Nordeste ligando sete capitais
Proposta do Trem do Nordeste prevê 1.400 km ligando sete capitais sem estudos de viabilidade nem orçamento definido

Flávio Bolsonaro (PL) promete construir uma ferrovia ligando sete capitais nordestinas sem aportes da União, mas especialistas apontam que o modelo ignora a realidade financeira do setor: em nenhum lugar do mundo trens de passageiros de longa distância se sustentam apenas com bilheteria.

A proposta, batizada de “Trem do Nordeste”, conectaria Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza. Até agora, não existe traçado, estudo de viabilidade, orçamento detalhado nem plano para desapropriações em áreas urbanas densas.

O que os números revelam sobre o custo real

O setor ferroviário trabalha com uma referência clara: cada quilômetro de trilhos custa entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões, variando conforme topografia e ocupação do solo. Aplicado aos 1.400 km prometidos, a conta mínima salta para R$ 28 bilhões — podendo ultrapassar R$ 42 bilhões.

Para comparar, a Ferrovia de Integração Centro-Oeste, leiloada em 2025 com 363 km entre Goiás e Mato Grosso, tem investimento previsto de R$ 10,2 bilhões. A média: R$ 28 milhões por quilômetro, exatamente no teto da estimativa setorial.

  • Extensão proposta: 1.400 km
  • Custo estimado por km: R$ 20 mi a R$ 30 mi
  • Investimento total projetado: R$ 28 bi a R$ 42 bi
  • Referência real (FICO): R$ 28 mi/km

Por que capital privado sozinho não fecha a conta

A campanha afirma que o empreendimento seria bancado apenas por concessões e parcerias público-privadas, sem dinheiro do Orçamento da União. A coordenadora econômica Daniella Marques defendeu o modelo em agosto, mas a experiência contradiz a tese.

O trem intercidades São Paulo–Campinas, leiloado em fevereiro de 2024, exigiu aporte estadual de R$ 8,98 bilhões — 63% do investimento total de R$ 14,2 bilhões. E isso no eixo mais adensado e rico do país, com fluxo diário garantido de passageiros.

“A tarifa por si só não consegue sustentar todos os investimentos necessários. Toda equação de risco e retorno é importante. Isso é realidade no Brasil e no mundo”, afirma Isadora Cohen, sócia da ICO Consultoria e especialista em infraestrutura.

O benchmark global: subsídio é regra, não exceção

Na União Europeia, rede ferroviária madura e densa, 58,7% do transporte de passageiros em 2022 operou sob contratos de serviço público — governos pagam às operadoras para manter rotas, horários e tarifas que o mercado não sustentaria sozinho. O dado consta de relatório da Comissão Europeia de julho de 2025.

Fontes alternativas como naming rights de estações ajudam, mas não eliminam a necessidade de aporte público pesado, tanto na construção quanto na operação continuada.

O precedente que ficou no papel

Não é a primeira vez que a ideia surge. Em 2013, a Sudene e a ANTT anunciaram o “Trem do Sol”, ferrovia costeira ligando Salvador a São Luís para passageiros e cargas. O projeto nunca saiu do estágio de intenção.

Hoje, o governo federal tenta reativar trechos de passageiros sobre concessões existentes e abandonadas nas últimas décadas. Mesmo em linhas curtas, o uso de recursos públicos não está descartado.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se a proposta avança ou vira mais um anúncio de campanha: apresentação de estudo de demanda com origem-destino realista, definição clara da modelagem de risco entre União, estados e concessionárias, e demonstração de como as desapropriações em sete capitais serão viabilizadas sem paralisar o cronograma. Sem esses elementos, o “Trem do Nordeste” permanece no terreno da retórica — e o custo de tirá-lo do papel, se um dia sair, será necessariamente compartilhado com o contribuinte.