O presidente da Ferrari, Benedetto Vigna, classificou com nota máxima a demonstração do novo Roadster da Tesla — o esportivo que saltou, girou no ar e pousou de cabeça para baixo usando propulsores da SpaceX. O elogio público de um concorrente direto expõe uma fratura no conservadorismo da indústria automotiva de luxo. Mas o que vem depois do espetáculo é o que deve preocupar investidores e estrategistas.
Vigna não economizou adjetivos durante videoconferência promovida pela revista Quattroruote: “Temos que continuar sonhando”. A frase, dita por quem comanda a marca mais valiosa do setor, sinaliza uma mudança de postura que vai além de cortesia corporativa.
O carro que desafia a física (e o cronograma)
A versão Rocket do Roadster mostrada em outubro carrega números que, no papel, beiram a ficção científica: mais de 1.300 cv apenas na tração traseira, aceleração de 0 a 100 km/h em menos de um segundo e dois tanques de ar comprimido capazes de lançar o veículo em manobras aéreas. O sistema de sucção com ventiladores gera downforce ativo — o carro “gruda” no asfalto ou, invertendo a lógica, flutua.
- Potência: 1.300+ cv (traseira)
- 0–100 km/h: < 1 segundo
- Produção prometida: 2028
- Tecnologia-chave: Propulsores de ar comprimido derivados da SpaceX
Elon Musk confirmou o início da produção para 2028 — data que, diante do histórico de adiamentos do modelo (anunciado originalmente em 2017), fez analistas receberem o anúncio com ceticismo. As ações da Tesla subiram no curto prazo, mas corrigiram assim que relatórios apontaram a distância entre protótipo e linha de montagem.
Por que o chefe da Ferrari aplaudiu o rival
A reverência de Vigna não foi apenas pelo show pirotécnico. O executivo italiano destacou que a demonstração prova algo incômodo para o establishment: “Também no mundo automotivo, ainda há muito a ser feito”. Ele defendeu que montadoras precisam assumir riscos e buscar ideias fora de seus próprios ecossistemas — inclusive recorrendo a talentos de outras indústrias.
Foi exatamente o que a Ferrari fez com o Luce, seu primeiro elétrico puro. O design, assinado em parceria com Jony Ive (ex-Apple) e seu estúdio LoveFrom, gerou polêmica imediata: proporções arredondadas, silhueta que rompe com a linguagem clássica da marca. As ações caíram após o reveal. Ainda assim, Vigna afirma que o interesse comercial superou as expectativas para um modelo de quase US$ 600 mil.
A lição que vale para qualquer setor maduro
O paralelo entre as duas marcas revela um padrão. Tesla usa tecnologia aeroespacial para redefinir o que um carro pode fazer. Ferrari contrata um designer de smartphones para redefinir o que um Ferrari deve ser. Em ambos os casos, a inovação nasceu da contaminação externa — não de comitês internos.
“Se tivéssemos trabalhado sozinhos, não teríamos feito o que fizemos”, admitiu Vigna, direto da Índia, onde a marca promovia evento para clientes. A frase resume o dilema de empresas líderes: a excelência operacional que as levou ao topo costuma cegá-las para rupturas laterais.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o elogio de Vigna vira caso de estudo ou apenas cena para reels corporativos:
- Execução da Tesla: Entregar o Roadster Rocket em 2028 com homologação viária para as manobras aéreas — ou admitir que são apenas marketing de pista.
- Recepção do Luce: Se o design polêmico converter curiosidade em pedidos sustentados, a Ferrari valida a tese da colaboração externa.
- Movimento dos pares: Porsche, Lamborghini e Rivian já monitoram a reação do mercado. A próxima onda de “carros impossíveis” pode vir de quem hoje assiste da arquibancada.
Para o investidor, o sinal está dado: em mercados saturados, a vantagem competitiva migrou de “fazer melhor o mesmo” para “fazer o que ninguém imaginava ser possível”. A pergunta que fica não é se a Ferrari ou a Tesla vencem — mas quantas empresas do seu portfólio ainda contratam apenas espelhos de si mesmas.
