As importações de máquinas agrícolas saltaram 144% em quatro anos, enquanto a produção nacional encolhe 18% e fábricas param linhas de montagem. O Brasil comprou 11 mil equipamentos do exterior em 2025 — contra 4,5 mil em 2021 — e o ritmo só acelera em 2026.
China e Índia respondem por 93% desse volume. O resultado: demissões em cadeia, fornecedores sem pedidos e um setor que emprega milhares de pessoas à beira de perder competitividade irreversível.
O abismo entre campo e fábrica
Os números da Anfavea, baseados em dados do Mdic, expõem uma desconexão perigosa. De janeiro a setembro de 2026, entraram 11,2 mil máquinas — alta de 42% sobre igual período de 2025. No mesmo intervalo, as vendas internas caíram 15,8%, para 27 mil unidades.
“Vivemos um dos piores períodos dos últimos dez anos”, resume Igor Calvet, presidente da Anfavea. A retração atinge em cheio as colheitadeiras: vendas despencaram de 8 mil unidades em 2021 para 3 mil em 2025. Em 2026, o tombo adicional foi de 39,4% nos oito primeiros meses.
Por que o agricultor não compra nacional?
Três fatores explicam a migração para o importado, segundo a indústria:
- Commodities em baixa: margens apertadas reduzem capacidade de investimento.
- Crédito caro: juros elevados tornam financiamento de equipamentos de alto valor proibitivo.
- Endividamento prévio: muitos produtores já carregam dívidas de safras anteriores.
O fenômeno se concentra nos tratores de até 100 cavalos — 90% das importações. São máquinas de entrada, onde a diferença de preço decide a compra.
Compras públicas: porta aberta para o exterior
O setor público ampliou o problema. Em 2025, 65% dos 3.318 tratores licitados foram classificados como importados — cerca de 2.200 unidades. No total de máquinas agrícolas e rodoviárias, 10.603 unidades movimentaram R$ 3,7 bilhões. Equipamentos chineses representaram 33,5% da quantidade e 26% do valor.
A Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) concentra a maior parte dessas aquisições. Para Calvet, falta exigência de conteúdo nacional mínimo em editais, concessões e incentivos fiscais.
A barreira legal e o custo Brasil
A Lei de Liberdade Econômica (2019) impede reservas de mercado ou regras que dificultem concorrentes estrangeiros. A Anfavea pressiona por mudanças que tornem obrigatório o conteúdo nacional mínimo. Um projeto na Câmara permite pagar até 20% a mais por produtos brasileiros e 30% por bens com inovação local — aguarda análise na Comissão de Finanças.
Enquanto a legislação não avança, a diferença de custo permanece. Estudo da Boston Consulting Group encomendado pela Anfavea aponta: fabricar um trator de média potência na China sai 17% mais barato. Escala, matérias-primas, mão de obra, frete, impostos e financiamento explicam a vantagem asiática.
O efeito dominó nos fornecedores
O impacto já extrapola as montadoras. A Bridgestone fechou sua fábrica de pneus agrícolas no Brasil no início de 2025. Eram 200 funcionários; parte foi realocada para a linha de caminhões, os demais demitidos.
“Se não houver indústria aqui, também teremos que importar banco, estofamento, plástico, têxtil”, alerta Calvet. A cadeia nacional de componentes — aço, eletrônicos, borracha — perde escala e viabilidade a cada mês de ociosidade.
O que observar daqui para frente
Três frentes definirão o desfecho nos próximos trimestres: a tramitação do projeto de preferência nacional no Congresso, eventuais ajustes tarifários via Camex e a disposição do governo em condicionar compras públicas a conteúdo local. O Mdic afirma acompanhar o tema e mantém diálogo com o setor, mas medidas concretas ainda não foram anunciadas. Para o empresário do agronegócio ou investidor industrial, o sinal é claro: a janela para reagir está se fechando junto com as linhas de produção.
